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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Pensar e resistir

25.06.19, Alice Alfazema

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Qual é o papel da Educação hoje?

O papel da Educação é de ajudar os alunos a enfrentar problemas da vida. Isso de uma forma geral, mas sobretudo num mundo em crise. Eu fiz vários livros sobre Educação e, para mim, a ideia fundamental é que falta nos programas de Educação alguns temas fundamentais para que as pessoas possam enfrentar problemas da vida.

 

Que temas são esses?

Em primeiro lugar, a Educação trata de de conhecimento, mas é preciso fazer a pergunta: o que significa conhecer? Porque conhecer pode ser uma armadilha, que guarda ilusões, equívocos, erros. Devemos ensinar aos jovens todas as dificuldades do conhecimento, todas as possibilidades de erro. Por exemplo, uma percepção visual não é uma fotografia, é uma reconstrução com os olhos. As pessoas que estão longe de mim parecem pequenas aos meus olhos, mas na minha mente estão normais. Ou seja, todo conhecimento é uma tradução e uma reconstrução. E, em cada tradução, há possibilidade de erro. É muito importante ensinar a enfrentar o erro. O segundo problema da Educação é a compreensão humana. Não se ensina a compreender o outro. Quando falo do outro, não falo de estrangeiros, de pessoas que falam outra língua ou que são de outro país. Falo de quem está ao seu lado. É muito importante para  a vida compreender esse outro. Então, tem a questão da crise. A crise é um momento de muito mais incertezas que em tempos normais. Há angústias e dificuldades. Na Educação em tempos ditos normais, ensinam-se certezas, e não incertezas. Por exemplo, quando a França era um país ocupado pelos alemães, havia uma situação de incerteza, e era preciso encontar possibilidades de enfrentar isso. Resistir à incerteza é importante.

 

O senhor costuma dizer que estamos imersos numa crise. Que crise é esta?

Não é unicamente uma crise econômica, aquela que começou em 2008, mas é uma crise de civilização, das relações humanas. É uma crise de mentalidades, uma crise da Humanidade que não chega a se tornar Humanidade porque a globalização criou uma unificação técnica do planeta, mas não fez uma compreensão das culturas. Ao contrário: as culturas se fecharam em si mesmas, quando começou a unificação técnico-econômica. É uma crise generalizada, enfim. É preciso ensinar hoje em dia, as várias características da globalização. Há característas positivas e muito negativas. Uma parte das populações asiáticas ou latino-americanas que saíram da pobreza e passaram à classe média, mas outra parte dos pobres caiu na miséria. O processo da globalização ainda está descontrolado e nos conduz à possibilidade de catástrofe generalizada. Esses problemas precisam estar na Educação. Para onde vamos? Onde estamos, humanos? Hoje em dia é necessário ter consciência de que pertencemos à espécie humana, que tem um destino comum frente a tantos perigos terríveis. Não existe essa consciência, mas o oposto dela. A crise, a angústia fazem com que as pessoas se fecham em suas próprias identidades, etnias, religições, nações. A Educação precisa ensinar essa consciência de pertencimento à Humanidade.

 

O senhor disse que resistir é importante em tempos de crise. A Educação é uma forma de resistência?

Sim, resistência é um tema fundamental da Educação hoje. Existe uma onda generalizada de retrocessos, uma crise generalizada de democracia em muitos países. É uma degradação do pensamento político que não é nada mais do que uma obediência à economia. Vivemos a destruição da política em proveito da economia. O poder econômico controla a política, e não mais o caminho oposto. Nessa onda de retrocessos, de crise na democracia, há o neoautoritarismo, um novo tipo de poder, como na Turquia, na Rússia, na Hungria e aqui mesmo, no Brasil. A França também corre este perigo, além de outros países. É uma época de retrocessos e devemos resistir. Resistir pelos valores humanistas, resistir pelos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade. Temos que manter essa ideia de fraternidade humana, de uma economia solidária, devemos manter uma ideia de, digamos, oásis, outro tipo de vida que não obedeça a poderes econômicos. Isso é resistência.

 

Edgar Morin, sociólogo.

 

Texto retirado de O Globo.

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