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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Penico

19.05.15, Alice Alfazema

Na sexta-feira passada fui operada às varizes, maleita que herdei, estou já na terceira operação deste género, não sou portanto uma novata nestas coisas de batas verdes e toucas a condizer.

 

Nesse dia pego no meu saco e vou para o hospital como quem vai até à piscina dar umas braçadas. Tenho de estar lá por volta das onze e trinta, fazer a ficha, blá, blá...vou para o quarto por volta do meio-dia, o tempo passa, dizem-me depois que a operação é às catorze e trinta. Quero é despachar-me. Dão-me uma bata verde desbotado, aberta a trás, larga. Quando a vestimos é quase como quando viemos ao mundo, todos iguais, despojados de experiências, frágeis, temos de confiar em quem não conhecemos. 

Vou deitada na maca, num corredor cheio de luzes, uma pessoa olha-me e empurra com força aquela cama quase voadora, enfiam-me num elevador estreito, parece que estou numa cena de um filme, saímos do elevador e vejo mais luzes a correr pelo tecto. Chegámos. A enfermeira deseja-me sorte e eu agradeço. 

 

Fiquei ali deitada na maca à entrada da sala de operações, enquanto uns quantos enfermeiros vieram apresentar-se e dizer-me o que iam fazer. 

 

Naquele espaço de tempo senti-me minúscula.

 

Entrei na sala de operações e o médico pergunta-me o que estou ali a fazer, digo-lhe que vim fazer-lhe uma visita, ele diz-me que fiz muito bem. Rimo-nos.  Quer ouvir música? Claro respondo eu, dizem-me então que vamos já tratar disso. Chegou a hora da epidural, o anestesista está alucinado, e diz-me que é a primeira vez que vai fazer a picada, e repete com medo que eu não tenha ouvido, digo-lhe para ver se a agulha está romba, ele diz-me que não que está é ferrugenta, depois confessa que é a primeira de hoje. Sinto então um líquido fresco nas costas e a picada que nada doeu. Depois sinto uns líquidos pelas pernas adentro e digo-lhe. Ele diz-me que daqui a nada não sinto é nada. Foi verdade.  

 

Vejo-me então deitada, sinto apenas metade de mim. Um pano verde divide a minha outra parte. Do outro lado vozes descontraídas. Uma hora e meia depois tenho ligaduras nas pernas, pareço uma múmia pela metade. 

 

Quando chego a casa vejo que tenho as costas e o rabo alaranjado, deve ter sido dos tais líquidos, fico então a pensar e a rir-me da minha figura alaranjada junto àquele pano verde enquanto aproveitei para dormir uma soneca, afinal estávamos na hora da sesta. Depois vejo-me a ir à consulta e a pensar nisto tudo, espero que até lá isto me passe.

 

Podemos então ser identidades diferentes, podemos ser apenas um corpo, inerte e sem sensações, ou então podemos ser aquilo que queremos ser, sentir que existe muito mais para além da carne e dos ossos e de outras coisas que tais. 

 

 

Alice Alfazema

 

 

 

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