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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Peixe frito e arroz de tomate

20.10.19, Alice Alfazema

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Num destes Sábados levantei-me cedo e fui beber um café à beira-rio, estive por ali enquanto me apeteceu e até caminhei pela praia, estava um dia de vento, com algumas nuvens, um frio ligeiro no ar, as gaivotas voavam em círculos, dando guinchos de vendaval. Elas sabem. Havia também pombos e outros pássaros abrigados nas rochas que pareciam esculpidas na falésia. As ondas rebentavam de mansinho na areia, um cheiro a maresia, e algas deixadas na praia. A Serra de um verde escuro ao longe com o céu cinzento por detrás.

 

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Saímos dali, já quentes pela caminhada e fomos à praça (Mercado do Livramento - Setúbal) ao peixe e aos legumes, quando entro ali é como se entrasse num templo, olho para aquele azulejo magnifico e lembro-me de quem ali se encostava, aquela azáfama dá-me uma energia renovada, as cores dos legumes e o cheiro a peixe transportam-me para outro tempo. Percorro então as bancadas do peixe para ver o que quero, claro que já sei onde vou comprar, mas tenho de manter este ritual, vejo um espadarte com quase quatrocentos quilos, pargos rosados, garopas, pregados, salmonetes, fanecas, lulas, chocos, carapaus, enxarroco...conheço todos, nada daquilo é novidade para mim, sei a que sabem, sei como os cozinhar, sei como se escama, sei quando é fresco. 

 

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Gosto de me passear por ali, de me esquivar aos salpicos do peixe a ser amanhado, finjo que não percebo que os vendedores fazem de propósito em dar uma traulitada mais forte para que aquilo espirre e molhe os que por ali andam só a tirar fotografias como se estivessem num museu ou num safari. Aquela é a vida real, onde as mãos se enrugam pela água, as escamam se colam à pele, e o cheiro do peixe se entranha nos poros. 

 

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Compro raia, digo que não é preciso separar as postas, o senhor agradece-me, quero também carapaus para alimar, trago dois sacos cheios. De seguida vamos aos legumes. Primeiro damos uma volta de reconhecimento, vemos o que se passa aqui e acolá, interiorizamos aquilo que vimos e vamos à descoberta dos preços e da frescura. 

 

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As bancadas dos legumes são sempre muito coloridas, há pilhas de legumes de vários tons de verde, outras vermelhas, pedaços de abóbora cor-de-laranja, castanhas, uvas... as pessoas fervilham em redor dos vendedores, as bancas estão cheias do que de melhor há na terra e de fruta da época, compro tomates, alho-francês, cebolas, batatas, coentros...

 

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Vamos então para casa, lavo e amanho os carapaus e deixo-os de molho em água limpa, para que fiquem limpos de sangue, mais tarde vou pô-los no sal de um dia para o outro, para que os possa alimar. Passo para a raia, que está toda ranhosa, lavo-a e arranjo as postas, deixo-a também em água, até vê-la completamente branca. Quando isso acontecer salgo-a. 

 

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Coloco então o óleo numa frigideira com alhos,  deixo aquecer até os alhos fervilharem, depois de salgada, passo a raia por farinha, depois por água e de seguida meto a fritar. Entretanto também faço o arroz de tomate, descasco o tomate, a cebola, alho, louro, um fio de azeite, deixo estar em lume brando até ver o tomate desfeito e com molho, junto água, espero que ferva, ponho especiarias e sal, acrescento o arroz e os coentros, vou virando o peixe e lembro-me que tenho de fotografar isto para por no blog.

 

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Tirei as fotografias à pressa, não gosto de comer o peixe frio, muito menos o arroz, que perde o caldo. A casa ficou a cheirar a peixe frito, eu gosto desse cheiro, para mim reporta-me à infância e a momentos felizes.

 

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Boa semana!

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