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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Momentos especiais

30.08.19, Alice Alfazema

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Nesta semana tive dois momentos muito especiais. Estamos no fim de Agosto, e neste mês há muita gente de férias, os dias na escola são lentos e silenciosos e existe esta minha necessidade de demonstrar que a escola não é apenas sala de aula.  Às vezes deixo-me ir sem pensar, faço um grande esforço para o conseguir, não sei despegar o corpo do sentimento e rendo-me vezes sem conta. Surpreendendo-me em cada momento destes. 

 

É como se isto eliminasse a minha frustração dos dias maus, a recompensa que vem depois. É muito mais que um simples emprego, é dedicação, é um misto de sentimentos que nunca se misturam com o valor do salário. Talvez seja aquilo a que chamam de vocação. 

 

No meio da semana tivemos uma visita de um aluno que está em França há mais de quatro anos, está alto, muito mais do que nós, quase irreconhecível, quase um homem,  que me diz que veio até ali para matar saudades, e reconheço-lhe então aquele olhar traquinas e de bem com a vida, vejo-o ainda através daquele que usava uns óculos com hastes azuis florescentes e que me fazia ir à sala de aula buscá-lo para ir "arejar". Tenho saudades, diz ele enquanto olha em volta. 

 

Eu fico a olhar as árvores e aquele espaço amplo que é feito de pátios e esconderijos inventados, onde eles crescem todos os dias, onde gritam e barafustam. A poeira assente dos dias quentes de outros verões. Ainda oiço as vozes que estão presas no tempo, é como se um filme estivesse a passar diante dos meus olhos, são aqueles momentos que eu guardei em mim. 

 

Hoje também vivi um desses momentos especiais, um outro aluno veio à escola, este reconheci-o logo, já terminou o curso, tem barba, no entanto, olho para ele e vejo-o como antes, miúdo e reguila, na sua voz denoto uma calma de adulto, à minha frente está um homem, mas eu vejo a criança, o adolescente, ainda não consolido o homem, ou talvez para mim o mais importante é ver a criança. 

 

Ele sai de perto de nós e vai ver os pátios, as árvores e os bancos, os espaços das jogatinas. Volta. E vejo-lhe os olhos vermelhos e rasos de lágrimas. Meto-me com ele e digo-lhe: estás emocionado, olha-me e disfarça, diz que não, eu dou-lhe uma palmadinha nas costas e um sorriso grande, mas tenho vontade de lhe dar um abraço...

 

É por isto que escola não é só sala de aula - é também coração.

 

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