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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

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Março dia 17 - Mulheres-girafa

17.03.17, Alice Alfazema

Em casas feitas de palha, enfileiradas numa vila muito pequena, mulheres sorridentes, algumas jovens, outras velhas, exibem peças de artesanato ou trabalham em máquinas de tear. Mas aqueles que visitam a vila não estão tão interessados em comprar. Todos vão ali para ver de perto as míticas mulheres-girafa.


Durante a visita à vila, quem ainda não sabia aprende que essas mulheres são refugiadas do Myanmar, onde a tradição de tentar alongar os pescoços é secular. Não se sabe ao certo o motivo. Existem lendas que contam que seria para proteger dos ataques de tigres. Outras falam que seria para deixá-las mais belas. E ainda há quem diga que seria para punir as adúlteras.

 

A partir dos cinco anos de idade as meninas começam a colocar as argolas no pescoço. É uma peça única de bronze, com aros enrolados, que com o tempo é substituída por peças cada vez maiores, com no máximo 25 aros. As peças são extremamente pesadas, podem chegar até 10 quilos.

A curiosidade é que o pescoço não se alonga com o processo – é só ilusão de ótica. O que acontece na verdade é que os aros afinam a região e o peso da peça comprime a clavícula para baixo, afundando a caixa torácica, o que dá a impressão de que o pescoço cresceu. As mulheres Kayan podem tirar as argolas, só precisam tomar cuidado para não virar o pescoço bruscamente.

 

Mas se antigamente usar as argolas era tradição, hoje em dia virou uma questão de sobrevivência económica. Desde o final dos anos 80, membros da etnia Karen fogem do Myanmar, onde existe um conflito étnico, para o nordeste da Tailândia.

 

Existem alguns campos de refugiados na região e três vilas onde ficam especificamente o povo  das mulheres-girafa. Acontece que as Kayan se tornaram uma boa fonte de renda para quem explora o turismo por ali e, com isso, passaram a ser exploradas também.



A Tailândia não segue os regulamentos da ONU para refugiados. O povo Karen é proibido de sair das áreas demarcadas pelo governo, não pode trabalhar e tem pouco ou nenhum acesso à escola.

 

No caso das mulheres Kayan, a situação é pior. Como elas não seriam tão curiosas e exóticas se pudessem ser vistas andando na rua, acabam ficando confinadas nas pequenas vilas onde vivem. Caso decidam tirar as argolas, param de receber ajuda de custo do governo. E elas têm mais dificuldade do que as outras tribos para serem realocadas para outros países como refugiadas.




Por um lado, atualmente é o turismo e a venda de artesanato que sustenta as belas mulheres Kayan. Por outro, elas são o retrato de uma exploração abusiva e do desrespeito aos direitos humanos. Vivem presas num zoológico e têm poucas chances de sair dali.



 

 

Texto de Luiza Antunes, retirado do blog 360meridianos.

 

 

Alice Alfazema

 

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