Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Março dia 14 - Mulheres que cortam as folhas do chá

14.03.17, Alice Alfazema

 

As mulheres cortam as folhas para colocá-las nos cestos. Todos os dias, precisam juntar uma cota de, pelo menos, 24 quilos. Magras e sorridentes, suas mãos são as primeiras a dar vida a esse chá saboreado por milhões de pessoas todos os dias em Londres ou em Nova York.

 

 

Recebem 12 centavos de dólar por quilo ou 17, se conseguem mais de 25 quilos. Se não cumprirem uma cota diária, não são pagas. E essa história, que acontece todos os dias nas fazendas ou “jardins” de chá, como são chamados na Índia, se repete há pelo menos 150 anos, todos os dias, em cada jardim.

 

 

Em Assam, no noroeste do país, é colhida quase a metade do chá que é exportado – preto ou verde, orgânico ou com fertilizantes. As grandes marcas, como Lipton, são clientes habituais dessas paisagens onduladas, nas quais o verde parece infinito.

 

Uma delas, de propriedade da empresa hindu Tata, foi recentemente denunciada por três ONGs locais por abusos trabalhistas.

As pobres condições de vida e de trabalho nos jardins de chá controlados pela Tata Beverages através da Amalgamated Plantations Private Ltd (APPL) — uma empresa financiada parcialmente pelo Banco Mundial – permitem à empresa explorar comunidades inteiras de trabalhadores. Eles vivem dentro de seus territórios com salários menores do que dois dólares diários por pessoa, sem qualquer seguridade social, com poucas oportunidades de estudo e, muitas vezes, escravizados por dívidas com agiotas e comerciantes.

 

 

 

 

 

 

“Não há muita diferença em relação aos demais jardins”, explica Wilson Hansda, da People’s Action for Development (PAD, Ação Popular para o Desenvolvimento). Dentre as 850 fazendas e jardins em Assam, há alguns em que “as condições são piores e, inclusive, há registros de mortes por inanição de tempos em tempos”, relata Hansda.

 

Tudo começou há um século e meio, quando os britânicos obrigaram os indígenas a migrar para regiões produtoras de chá como servos do império e dos agiotas e donos de terras. Então, nasceram fortunas como a da família Tata, surgida do comércio colonial e da exploração de recursos naturais.

 

 

 

Tendo conquistado o sul da Ásia, os funcionários britânicos encarregados dos negócios começaram, no século XIX, a produzir as duas ervas mais importantes para a economia do seu império: o chá e o ópio. Para isso, disponibilizaram a seus empresários as terras e mão de obra barata, quase gratuita.

 

Começaram as expropriações de terras em 1830, com agiotas, comerciantes e policiais assediando as pequenas economias locais e adquirindo territórios indígenas (quase sempre, por meio da força). Naqueles que hoje são os estados de West Bengal, Biar, Jharkhand, Orissa e Chhattisgarh, milhares de famílias adivasis (indígenas), dedicadas à agricultura local e a atividades florestais, perderam sua casa e seu sustento. “Comercialização forçada” de terras, foi como chamaram em Londres.

 

 

 

Três milhões de indígenas trabalham na produção de chá em Assam. Muitos são crianças trabalhando com seus pais; apenas no três jardins da APPL e Tata, há 3 mil. Não existem escolas nem banheiros para as mulheres, que sofrem profundos níveis de discriminação, conforme relata Marandi, já que as famílias privilegiam os homens para receber educação e melhores alimentos.

 

Por isso, as jovens indígenas que querem algo a mais da vida do que colher chá procuram trabalho fora dali. “Vítimas do tráfico, são enviadas a diferentes partes do país e submetidas a diversas atividades, como o trabalho doméstico, e inclusive a prostituição. São retidas sob ameaças e não recebem salários nem podem contatar seus pais”, conclui Marandi. Segundo a polícia, apenas em Assam, durante os últimos dois anos, já “se perderam” cerca de 14 mil jovens mulheres. Segundo as ONGs, poderia ser o dobro.

 

 

Texto de Luis A. Gómez, retirado daqui.

 

 

 

Alice Alfazema