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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

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Março dia 12 - Mulheres compositoras

12.03.17, Alice Alfazema

 

Apesar desse ser um facto irrefutável, existem verdadeiros casos que fugiram à regra, onde a emancipação feminina e a sua presença artística é fundamental e alicerçada, quer pela sua qualidade e valor artístico, quer pela dificuldade verdadeira com que uma mulher se depara no sentido de tentar impor-se no universo musical grandemente dominado pelos homens. A verdade é que esse universo musical sempre teve um cunho afincadamente machista, onde a presença da mulher foi grandemente ofuscada ou relegada para segundo plano. Em alguns casos por mero preconceito social, noutros casos por ignorância e desinformação. Por exemplo, existiram casos em que a carreira musical da mulher foi subaproveitada dado que o marido, ao tempo, tinha uma carreira e uma reputação musical a defender, tal como aconteceu com Clara Schumann em relação ao seu irmão Robert.

 

No caso de Fanny Mendelssohn, o irmão (Félix Mendelssohn) era detentor de um prestígio de tal maneira publicamente exposto e assumido que, a irmã viu desvalorizado o seu talento e mérito artístico, tendo mesmo acontecido, situações em que obras da autoria de Fanny teriam sido assinadas pelo irmão, pois potencialmente obteriam maior aceitação e o êxito seria praticamente garantido (o mesmo aconteceu a Clara Schumann). Aliás, justiça seja feita, Félix Mendelssohn dizia claramente que a irmã compunha canções e tocava (piano) melhor do que ele.

 

 

HILDEGARDA DE BINGEN (1098 -1179) Há 910 anos nascia uma das maiores referências musicais e intelectuais do seu tempo. Eis que Hildegarda de Bingen ou Hildegard von Bingen, poetisa, mística e compositora alemã de origem nobre, ingressa aos 15 anos no mosteiro beneditino de Disododenberg, sucedendo a Jutta de Spanheim como superiora na mesma instituição. Fundou ainda os mosteiros de Rupertsberg e Eibingen. Representa, nada mais nada menos que um dos mais antigos compositores de toda a história da música ocidental. A abadessa Hildegarda, agora a Santa Hildegarda de Bingen que, para a igreja católica, e depois de quatro tentativas de beatificação, permanece apenas beatificada, somente a igreja anglicana a reconhece como santa, deixou um legado relevante de poemas (cerca de 70 poemas reunidos na obra intitulada "Symphonia armonie celestium revelationum"), tal como refere Horta (1985: 172) “um dos mais importantes compositores medievais de cânticos, ela escreveu a Symphonia harmonie celestium revelationum, compreendendo mais de 70 poemas líricos musicados, juntamente com o auto de moralidade Ordo virtutum”, assim como tratados médicos e científicos (exemplares únicos na Europa no século XII onde patenteia o seu admirável saber sobre de plantas medicinais), para além de cartas e de um significativo número de composições de música sacra, onde constam variadíssimas composições de temática religiosa tais como Viridissima virga; Ordo Virtutis (espécie de ópera que narra um diálogo de um grupo de freiras com Deus).

 

 

 

FANNY MENDELSSOHN (1809-1847) Um dos casos mais flagrantes de esquecimento e de subaproveitamento de um talento artístico. O seu irmão, o famoso compositor Felix Mendelssohn afirmava continuamente que Fanny tocava piano melhor do que ele e que, não obstante ser uma surpresa esta declaração, faria uma ainda mais reveladora, quando dizia que Fanny compunha melhores canções do que o próprio. Este reconhecimento familiar do talento e virtuosismo de Fanny não chega para que, em tempos vitorianos, uma mulher se impusesse no mundo da música e da composição.

 

 

 

 

MARIA ANNA MOZART (1975-1829) Tinha como apelido “Nannerl”, mais tarde fica conhecida por Marianne. Irmã mais velha de Wolfgang Amadeus Mozart. Famosa intérprete em toda a Europa no século XVIII. Era apresentada conjuntamente com W. A. Mozart como os meninos-prodígio, mas Nannerl tinha-se tornado em Marianne, ou seja, somente Mozart ganhava a atenção de todos, uma vez que Nannerl se tinha tornado moça, se bem que somente 4 anos separavam a idade de Wolfgang da de Nannerl. Era possivelmente, há altura, tão talentosa como o irmão mas, como já referimos deixou de cativar atenção daqueles que tinham os meios e o poder para lançar ou, melhor dizendo, para suportar uma carreira musical. Para além de certamente o facto de ser mulher lhe teria causado grandes entraves. O que seria de Marianne se Mozart não tivesse existido e se o preconceito não tivesse vingado?

 

 

 

 

 

CLARA SCHUMANN (1819-1896) Compositora e pianista da corte austríaca. Esta mãe de 8 filhos, foi, para além de dedicada esposa, uma das mais afamadas pianistas do século XIX. Para Borba (1999: 538) “companheira dedicada e sofredora, consagra parte da sua actividade de concertista à divulgação das obras daquele (referindo-se a Robert Schumann)”. Nasceu no seio de uma família de grande tradição musical. O seu pai, Friedrich Wieck, seria, desde muito cedo, o responsável pela aprendizagem técnica de piano e, sua mãe, Marianne, dar-lhe-ia alguma inspiração para a arte musical, uma vez que era uma excelente concertista. Mas, nem os cinco anos de idade tinha alcançado, os seus pais divorciaram-se e, o seu pai, com a sua custódia legalmente atribuída, começou de forma exaustiva e rígida a ministrar-lhe lições de piano. Aos 9 anos de idade dava o seu primeiro concerto na cidade de Leipzig. Aos 13 anos, aposta em digressões por França, Dinamarca e Rússia, fazendo jus ao seu talento e consolidando a sua carreira internacional. Aos 16 anos, com direcção do famoso compositor e maestro Felix Mendelssohn, foi publicamente apresentado o seu Concerto para piano em lá menor. Segundo Lopes-Graça (1999:538) “Em 1837 exibe-se com grande com grade êxito em Viena, recebendo então o título de Krammer-Virtuosin da corte”.

 

 

 

 

NADIA BOULANGER (1887-1979) Compositora, pianista, directora de orquestra e pedagoga francesa. O amor pela música e pelo ensino estendeu-se por toda a sua vida. Estudou com Vierne e Fauré no Conservatório de Música de Paris. Em 1908, tal como a sua irmã, obteve o Grand Prix de Rome e tornou-se assistente de Harmonia no Conservatório de Paris (1909-24). Leccionou durante cerca de duas décadas na École Normale de Musique e no Conservatório Americano de Fontainebleau, cuja direcção assumiu em 1950. Alcançou fama mundial como professora de composição, tendo uma lista eclética que inclui, entre outros, alguns dos principais criadores do século XX, tais como Astor Piazzolla, Philip Glass, Leonard Bernstein, Quincy Jones, Almeida Prado, Aaron Copland, Lennox Berkeley, Cárter e Thea Musgrave.

 

 

 

 

GERMAINE TAILLEFERRE (1892-1983) A única mulher incluída no famoso "Grupo dos Seis" (compositores modernos franceses). Para além de Germaine ingressavam neste grupo Georges Auric, Louis Durey, Arthur Honegger, Darius Milhaud e Francis Poulenc. Na retaguarda deste movimento, estaria o seu contemporâneo Erik Satie, o qual nunca pertenceu oficialmente a este grupo mas, como é sabido, teve sobre ela uma influência completamente decisiva. As influências não ficam por aqui, pois teve-as claramente de Couperin, Grétry, Chabrier, Debussy, Ravel, Stravinsky e, sobretudo de toda uma tradição clássica francesa.

 

 

 

CHIQUINHA GONZAGA (1847-1935) A compositora brasileira mais conhecida internacionalmente. Apesar da sua apetência para a composição de peças populares, é igualmente autora de partituras para grande orquestra e orquestra de câmara, piano, música sacra, operetas e música de teatro. No campo do teatro, Chiquinha Gonzaga desempenhou um papel fundamental para o incremento das artes, nomeadamente no que diz respeito aos direitos autorais (fundadora da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais). Compositora e pianista de renome, desde cedo assumiu a sua vocação, tendo-se tornado a primeira chorona, primeira pianista de choro, ou seja, foi autora da primeira marcha carnavalesca Ô Abre Alas (1899). A sua primeira composição Canção dos Pastores (aos 11 anos). Aos 13 anos, por imposição familiar, casou-se e, logo desde o inicio, teve ordens claras para que se alheasse do mundo da música e, como seria de esperar, atendendo ao seu temperamento, separou-se do seu marido (Oficial da Marinha Imperial) levando consigo os seus cinco filhos, depois de anos a fio aprisionada num navio onde o marido prestava serviço e onde a música para era ela seria um bem inalcançável.

 

 

 

Texto retirado da Revista Sinfonía Virtual, um artigo do Professor Doutor Levi Leonido, podem ver o artigo completo aqui.

 

 

Alice Alfazema