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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Luxo

Liberdade

18.03.20, Alice Alfazema

 

 

Ilustração Scott Kahn

 

Hoje, a partir da meia-noite entramos no estado de emergência nacional, neste momento são 22h e as pessoas estão à janela a bater palmas em sinal de reconhecimento por todas as pessoas que estão a lutar na linha da frente desta pandemia, as palmas fazem eco pela rua toda, no entanto parece haver um silêncio a separar-nos, tal como uma bolha invisível, é o medo, no andar de baixo o miúdo que tem três anos canta músicas de Natal intercaladas com a música do Toy "toda a noite". Vivemos momentos desconcertantes. 

 

Tenho pensado muito sobre a forma como vivemos e de como vamos ser forçados a viver nos próximos tempos, quando escrevi este texto a convite da MJ, um texto que foi destaque no SAPOblogs, e um texto que escolhi como o meu favorito do ano de 2019, colocando-o aqui no último dia do ano, nunca pensei que esta Liberdade, que tanto venero, me fosse vedada em tão pouco tempo e por uma causa global, invisível e difícil de exterminar. 

 

Voltar àquelas palavras dá-me alento, preciso delas e de sentir de novo aquele momento, vejo-o agora ainda com mais valor, e espero voltar lá para vos escrever sobre a sensação do que é voltar a ser livre de novo.

 

Escrevo este texto no dia 20 de Outubro de 2019, é Domingo e está sol, ontem foi um dia de chuva intensa. Hoje o dia amanheceu luminoso, manso e fresco, levantei-me e tomei o pequeno-almoço em casa, nada de especial, pão com queijo-fresco de ovelha e um sumo de frutos vermelhos. Fomos depois beber um café à beira-rio.

 

Estou agora em frente ao rio, num sítio tranquilo e cheio de árvores, sento-me enquanto bebo o meu café, à minha frente o rio brilha, com aquele brilho de felicidade, algumas pessoas andam a remar em pequenos barcos ou nas pranchas praticando desporto e usufruindo daquele espaço, na praia um homem enche baldes grandes com água do rio e carrega-os para dentro duma carrinha, uma mulher corre atrás do cão, as gaivotas assistem impávidas e serenas, um outro homem tira água de dentro de um bote, prepara-se para ir para a pesca, a esplanada vai-se enchendo de gente.  Todos falam baixo, consigo ouvir as folhas secas a baloiçar com o vento. 

 

Vejo, então o verde da Serra, as árvores e as rochas cravadas naquela terra vermelha, ao longe uma curva com a cidade, o rio que brilha intensamente, sinto em mim todo aquele fluir, o azul das ondas, a maré vazia, a terra vermelha, o céu límpido, a outra margem do rio, as gaivotas que voam, o motor do barco, o sabor do café misturado com o açúcar, as pessoas que falam tranquilamente. A paz da manhã. 

 

Sou então uma privilegiada, que aprecia o rio e o espaço à minha volta, sem medos, nem fome, nem guerra, podendo estar, sem pensar em ir - isso é Liberdade. 

 

 

 

Obrigada a todos os que passam por aqui, que este momento sirva para nos lembrarmos que nunca devemos dar nada por garantido, devemos sim construir um mundo melhor, esse é o nosso dever e deve ser a nossa missão. 

 

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