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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Já viram as nossas árvores?

24.02.19 | Alice Alfazema

Não sei se alguém já reparou em como andam a ser feitas as podas das nossas árvores em meio urbano. Para mim estas podas radicais são amputações de um Verão mais fresco,  e do futuro, são uma falta de respeito pelo biodiversidade, pois uma árvore é muito mais que um tronco e meia dúzia de ramos. 

 

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Por aqui onde moro as árvores que já aqui descrevi, este ano foram laminadas, não há um único galho para os pássaros poisarem. Onde havia gaios, poupas, mochos, pintassilgos e pardais, entre outros, não há nada, nada de nada, nem sombra, nem porte. 

 

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As árvores parecem-me garfos erguidos aos céus, uma tristeza, tenho vontade de chorar, um mau exemplo nos dias que correm e em que tanto falamos das alterações climáticas e de tantos outros problemas do meio-ambiente.

 

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Já viram por aí grandes troncos com cotos pequeninos? Será uma árvore um ser vivo? Ou um mero capricho de alguém? Não temos direito a usufruir de árvores de grande porte em meio urbano? Serão as árvores alvos a abater? Quem tem ódio às árvores? 

 

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Oração da Árvore

 

Tu que passas e ergues para mim o teu braço 
Antes que me faças mal olha-me bem.
Eu sou o calor do teu lar nas noites frias de inverno
Ou sou a sombra amiga
Que tu encontras quando caminhas sob o sol de agosto
E os meus frutos são a frescura apetitosa
Que mata a sede nos caminhos.
Eu sou a trave amiga da tua casa,
A tábua da tua mesa,
A cama em que tu descansas
E o lenho do teu barco.
Eu sou o cabo da tua enxada,
A porta da tua morada,
A madeira do teu berço
E o aconchego do teu caixão.
Sou o pão da bondade e a flor da beleza.
Tu que passas olha-me bem
E não me faças mal.

 

 

Veiga Simões, Arganil, Portugal, maio de 1914.

 
 
 

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Diremos que se derrubam árvores por quatro razões principais, a saber:
 
primeira, porque quem o ordena não sabe que a árvore é uma criação perfeita que mantém sempre todas as suas admiráveis qualidades até morrer, e portanto não só toda a vida fornece sombra aos justos, como também, noutro sentido (figurado), faz sombra aos espíritos tacanhos que nunca conheceram qualquer forma de perfeição que seja e por isso se exasperam com inveja das árvores, só lhe querendo mal;
 
segunda, porque deitar abaixo uma árvore é fácil, rápido e flagrantemente reconhecível , o que dá ao derrubador a sensação de, com simplicidade, haver conseguido uma vez na vida ‘fazer alguma coisa que se veja’;
 
terceira, porque arrancar árvores introduz nos lugares de onde saem, imediatamente, um aspecto que, por não ser devido a elementos que levaram muito tempo a formar, por isso mesmo merece logo o título de novidade ou modernismo, sem preocupação ou reconhecimento se o que se acabou de fazer ficou melhor ou pior, mas que mitiga, entretanto, o prurido dos que confundem o corte de uma árvore com a ablação de um quisto enfadonho;
 
quarta e última, englobando ao mesmo tempo o mais mesquinho e o mais grave dos motivos : cortam árvores porque se pode então vender a sua madeira – prémio vil, mas muito superior ao pouco valor que se lhe atribui a mentalidade de quem as derruba;
 
e cortam as árvore porque nunca alguém lhes disse ou explicou o valor educativo que essa admirável criatura encerra».
 
 
 
Raul Lino . “Sintra: um teleférico e outras ratices”, 1962