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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Hoje apetece-me contar uma estória

28.09.19, Alice Alfazema

Era eu uma miúda e atravessava o Sado numa traineira, ao final do dia o cheiro do gasóleo entranhava-se nas minhas narinas, era também um cheiro de oceano, serra e rio, isto tudo misturado como resumo do dia, para mim estes cheiros funcionam como marcadores de memória.

 

Atravessava então o rio azul e manso, onde podia ver as várias correntes que entravam e saíam do oceano, na cabine e ao leme alguém levava o barco que trepidava a meus pés, era uma sensação relaxante, parecia coisa de brincar,  nas tábuas do barco escamas secas resistiam às lavagens, havia um cheiro a peixe que me lembrava gaivotas, beliches estreitos e claustrofóbicos, redes e aparelhos de pesca, fateixas, anzóis, e armadilhas para polvos, bóias vermelhas, um fogareiro, fogão, antena de rádio, uma bandeira, um santo. 

 

As cores do barco eram vibrantes, nas laterais por fora, estavam pendurados pneus, amarrados com cordas grossas, à proa estava escrito o nome da embarcação, na popa levava a reboque um bote, que servia para descermos para terra. 

 

Tudo ali me fascinava, havia tanto por descobrir, tanto por aprender. Como consertar uma rede, como lançar a rede, como armar os aparelhos(armadilhas de pesca), como recolher a rede, quais os melhores sítios para apanhar peixe, como chegar lá, como vencer as tempestades apenas com aquelas tábuas, como enfrentar a noite, qual a emoção ao receber o sol da manhã, o vento, a chuva, o sal, tudo tão vibrante ali naquele canto suspenso na água. 

 

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