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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Garganta

02.08.21, Alice Alfazema

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Um dia, enfiou as mãos na boca e puxou a garganta para fora.
Passou o dia a desatar nós. Caiam-lhe aos pés, as dores que ali se
cravaram.
Servindo-se das unhas, raspou o calado, que separou
cuidadosamente, da mescla
de sangue e lágrimas que lhe escorria pelos cotovelos. Depois, voltou
a colocar a
garganta no sítio e atirou com o que dali arrancou para cima da mesa.
Houve os que
perderam a fome, outros a sede, outros ainda, o sono. Depois disso
nunca mais falou.
Esta é a história de uma mulher, que dizem ser tão antiga como a rua.
Chamam-lhe a
Mulher do Vento. Dizem, que desde esse dia, a sua voz é nada mais que
um sopro leve,
que liberta das curvas do tempo e faz ouvir através de uma flauta.
Sem se importar
com o que os outros dizem ou pensam, pois só a eles lhes pertence.
Todos os dias,
à mesma hora, toca naquela esquina. Há os que passam e a chamam
de louca.
Há os que param e escutam, sem entenderem. Há a criança que canta
e a árvore
que estende os seus braços e lhe abraça a leveza. Mas só o Vento se
demora no que
ouve, rodopia sobre a rua, assobiando a mesma melodia em cada
janela, até que já
cansado a leva consigo, para a sua morada, que ninguém sabe onde
fica.
E quando todos já dormem, a rua murmura o que o vento lhe trouxe...
e a lua sorri.
 
 
 
Poema de Sónia Micaelo
 
 

 

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