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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Força oceânica

18.11.17, Alice Alfazema

 

 

 

Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.

 

Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.

 

Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?

 

 

 

 

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua…
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

 

Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

 

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua…)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua…
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu…

 

 

 

O que me encanta é a linha alada
das tuas espáduas, e a curva
que descreves, pássaro da água!

 

É a tua fina, ágil cintura,
e esse adeus da tua garganta
para cemitérios de espuma!

 

É a despedida, que me encanta,
quando te desprendes ao vento,
fiel à queda, rápida e branda

 

E apenas por estar prevendo,
longe, na eternidade da água,
sobreviver teu movimento…

 

 

 

 

Os poemas são de Cecília Meireles e as fotografias de Luke Shadbolt

 

 

 

Alice Alfazema

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