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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Era uma vez um Amor sem idade

25.06.18 | Alice Alfazema

 

Ilustração Helen Rowe

 

 

Era um par de jovens. Ela e ele. Ambos jovens. 
Alegremente cantavam as canções dos jovens 
e tinham orgulho em dançar as danças ruidosas dos jovens. 
Como jovens que eram riam-se das pessoas antigas 
por já não serem jovens, 
por não saberem dançar as suas danças de jovens, 
por não saberem cantar as suas canções de jovens. 

 

 

 

 

 


Mas num dia em que os seus olhos se encontraram de certo modo, 
sentiram nos seus corpos um estremecimento antigo. 
As células antigas dos seus corpos jovens 
estremeceram. 
As palavras de amor saíram-lhes da boca 
pressurosas e múltiplas, 
como as pequenas bolas de sabão 
quando num tubo estreito são sopradas. 

 

 

 

 

 

 

 


E juntamente com elas saíam passarinhos leves, 
passarinhos antigos, 
tão leves como as bolas de sabão, 
e os passarinhos iam debicar nos lábios de ambos, 
e os lábios intumesciam-se, vermelhos e macios como polpas, 
e os passarinhos roçavam a penugem do peito pelas pálpebras deles 
com os bicos alisando as sobrancelhas, 
e aninhavam-se entre a carne e a roupa 
batendo as asas num saber antigo. 

 

 

 


Quando acordaram e quiseram sacudir o pó do tempo 
ouviram o riso dos jovens que se riam das pessoas antigas, 
e alegremente cantavam as suas canções de jovens 
e tinham orgulho em dançar as danças ruidosas dos jovens.

 

 

 

 

 

Poema de António Gedeão

 

 

 

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