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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Entre a aguarela e a poesia

08.04.17, Alice Alfazema

 

Tenho em casa um piano azul

E não conheço uma só nota.

 

Ele fica no escuro à porta do porão,
Desde que o mundo decaiu.

 

Tocado a quatro mãos-estelares 
– A mulher-lua cantava no barco –
Hoje os ratos dançam sobre as teclas.

 

 

O teclado está quebrado…
Eu choro pelos mortos azuis.

 

Ah anjo amado 
– eu comi do pão azedo –
Enquanto ainda estou viva 
Eu lhe peço – embora seja proibido –
Abra pra mim as portas do céu.

 

 

Ilustrações Victoria Kirdy

 

 

Poema de Else Lasker-Schüler (1869–1945), poeta alemã e judia. Viveu em Berlim até à chegada de Hitler ao poder, em 1933.

 

 

 

 

Escorrem as cores vivas e alegres pelo pincel, onde se desenham cenas alegres e tranquilas, escorrem palavras negras cobertas de desespero, descem pela caneta que treme na mão. No mundo escorrem lágrimas nos rostos sujos que transmitem o medo, que mostram a fome. Escorrem laivos de loucura naqueles que olham para o lado.

 

Alice Alfazema

 

 

 

 

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