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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Diário dos meus pensamentos (16)

04.04.20, Alice Alfazema

Estive a enumerar este diário para que ficasse mais fácil de perceber isto, assim já lá vão dezasseis dias, é isto, parece que o tempo passa devagar, mas não. Neste momento o meu filho está a declamar o poema Mostrengo, eu sou o júri e vou avaliar a declamação. Qual é o pior mostrengo que podemos enfrentar por estes dias? Será o tempo? A falta de paciência? A ansiedade? O medo? A desinformação? O vizinho que teima em cantar? O badalhoco que deita luvas e máscaras para o chão? Andar de transportes públicos? Despejar o lixo? 

 

 

O mostrengo que está no fim do mar

Na noite de breu ergueu-se a voar;

À roda da nau voou três vezes,

Voou três vezes a chiar,

E disse: «Quem é que ousou entrar

Nas minhas cavernas que não desvendo,

Meus tectos negros do fim do mundo?»

E o homem do leme disse, tremendo:

«El-Rei D. João Segundo!»

 

«De quem são as velas onde me roço?

De quem as quilhas que vejo e ouço?»

Disse o mostrengo, e rodou três vezes,

Três vezes rodou imundo e grosso,

 

«Quem vem poder o que só eu posso,

Que moro onde nunca ninguém me visse

E escorro os medos do mar sem fundo?»

E o homem do leme tremeu, e disse:

«El-Rei D. João Segundo!»

 

Três vezes do leme as mãos ergueu,

Três vezes ao leme as reprendeu,

E disse no fim de tremer três vezes:

«Aqui ao leme sou mais do que eu:

Sou um Povo que quer o mar que é teu;

E mais que o mostrengo, que me a alma teme

E roda nas trevas do fim do mundo;

Manda a vontade, que me ata ao leme,

De El-Rei D. João Segundo!»

 

Poema de Fernando Pessoa

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