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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Diário dos meus pensamentos (7)

De manhãzinha

26.03.20, Alice Alfazema

Levantei-me cedo e fui comprar pão ao café do bairro, havia um frio que me arrepiava, as janelas dos prédios estavam quase todas fechadas, alguém no prédio ao lado vai mudar de casa, os homens que tratam da mudança perguntaram-me se sabia de quem era o carro que estava por debaixo da janela, respondi que não sabia, mais à frente havia um carro na estrada e um homem passeava o cão, é o homem que trabalha no talho do Pingo-doce, disse-lhe bom-dia. Comprei o pão e vim para casa, voltei então a sair para passear o Ginjas.

 

Desci então com o cão, e deixei-o cheirar as flores silvestres, demos um pequeno passeio em frente da casa, coisa pouca dizia-me ele, então decidi ir em frente, pelo meio da estrada, a estrada era só nossa, ele apresentava-se com um andar tranquilo e bamboleante, assim uma coisa como um bailarino de ballet clássico, cabeça erguida, orelhas em pontas, pescoço altivo e pernas leves. Quando alguma coisa lhe chama a atenção, aumenta o seu campo de visão pondo-se em pé, e é capaz de andar assim durante algum tempo. 

 

A brisa fresca da manhã torna-se então agradável, aqui tudo parece normal, as árvores estão a cobrir-se de folhas verdinhas, os pássaros cantam, não sei se cantam para mim, mas desconfio que sim, porque se assomam à minha frente, e fazem voos rasantes, vejo o castelo ao longe, parece que me acena, agora tudo me parece animado, os homens das obras continuam a construir o prédio, há outro em construção mais à frente, vejo que cortaram duas árvores grandes para o fazer, entristece-me. 

 

Dou meia-volta e regresso ao caminho de casa, agora há mais janelas abertas, uma mulher olha-me por detrás do vidro, tem uma blusa às flores, os passeios estão limpos e desinfectados, o meu vizinho do lado tem a bandeira nacional à varanda, não há ninguém na rua, começa hoje a fase de mitigação, reparo então num pano grande e branco, com um enorme arco-íris e a dizer - vamos ficar todos bem. É do meu vizinho de baixo. Penso, então que tenho de fazer qualquer coisa para colocar à minha janela. 

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