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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Densidade

06.12.20, Alice Alfazema

búzio.jpg

Ilustração Lynn Bywaters

 

 

No alto da duna o Búzio estava com a tarde. O sol pousava nas suas mãos, o sol pousava na sua cara e nos seus ombros. Esteve algum tempo calado, depois devagar começou a falar. Eu entendi que ele falava com o mar, pois o olhava de frente e estendia para ele as suas mãos abertas, com as palmas em concha viradas para cima. Era um longo discurso claro, irracional e nebuloso que parecia, como a luz, recortar e desenhar todas as coisas. Não posso repetir as suas palavras: não as decorei e isto passou-se há muitos anos. E também não entendi inteiramente o que ele dizia. E algumas palavras mesmo não as ouvi, porque o vento rápido lhas arrancava da boca. Mas lembro-me de que eram palavras moduladas como um canto, palavras quase visíveis que ocupavam os espaços do ar com a sua forma, a sua densidade e o seu peso. Palavras que chamavam pelas coisas, que eram o nome das coisas. Palavras brilhantes como as escamas dum peixe, palavras grandes e desertas como praias. E as suas palavras reuniam os rostos dispersos da alegria da terra. Ele os invocava, os mostrava, os nomeava: vento, frescura das águas, oiro do sol, silêncio e brilho das estrelas.

 

  Sophia de Mello Breyner Andresen, in Contos Exemplares,  p. 148. 

 

A casca ficou de repente vazia, o búzio dorme agora em cima da areia, balançando-se quando encontra a água, a casca já sem o búzio, acolhe agora os sons do mar, esperando que alguém pegue nela e lhe escute a mensagem, eu sou o mar, um espírito livre que percorre para sempre esta casca sem corpo. 

O búzio divide-se entre o corpo e a casca, inerte o corpo abandonou a casca, deixando a madrepérola brilhar quando a água e o sol se juntam, fundindo-se para sempre numa terna recordação de quem lhe conheceu a essência. 

 

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