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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

De toda a parte e de lado nenhum

26.06.18 | Alice Alfazema

 

Gostava de ter favoritos mas não tenho. Sinto que é demasiado fácil ter-se favoritos. Um amigo favorito, uma cor favorita, um prato favorito. Ter-se favoritos é não investigar, não dar oportunidades aos outros, é ver apenas numa direcção, numa cor, num sabor.

 

Gosto de demasiadas cores para ter uma de eleição, até porque há dias em que gosto mais de umas que de outras. Dá-me mais jeito. Gosto de comer diversos sabores, se tivesse um de preferência decerto que o enjoaria. 

 

 

 

E amigos? Porque haveria de ter preferências? Todos têm decerto defeitos e qualidades. Porque apostar nas qualidades ou reduzir outros a defeitos? Aquilo que nos define é o nosso percurso de vida, posso ter determinado defeito ou determinada qualidade e isso dever-se àquilo porque já passei. Ser-se amigo de alguém é saber compreender isso, alcançar essa visão é o esforço da amizade, um amigo liberta, não exige.

 

Não pertenço a grupos, tenho pouca paciência para a religião, no entanto compreendo a compaixão, a empatia, a solidariedade, só não compreendo a necessidade da miséria para a busca de um ser bondoso.

 

 

 

Se pudesse me definir como um animal teria certas dificuldades, gosto de águias, do voo do condor, do rugido do leão, do uivo do lobo, da elegância do andar uma girafa, da solidão de um percurso de uma baleia enquando percorre milhares de quilómetros, da tranquilidade do nadar de um tubarão branco, da alegria de um corre corre de um chimpanzé entre os ramos das árvores.

 

Tenho sérias dificuldades em fazer testes de personalidade e afins, nunca consigo responder claramente e com exactidão àquilo que me é perguntado porque não tenho favoritos. Parece que todos pertencemos a algum lado, não me sinto de lado de nenhum, mas sinto-me de toda a parte. 

 

 

Alice Alfazema

 

 

 

As ilustrações são de Andrey Remnev 

 

 

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