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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

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Conversas da escola - Como se lava uma sanita?

06.09.17 | Alice Alfazema

Há onze anos, quando vim trabalhar para a escola, tinha uma ideia idílica sobre a escola, pensava então que poderia fazer a diferença, que estava ali porque fazia parte de uma equipa. Assim um belo dia, caiu-me pela primeira vez a ficha, estava eu sentada na secretária, num bloco de doze salas, quando uma jovem sai de uma sala e me diz: a professora mandou-me perguntar-lhe por que é que está aqui a trabalhar, estou aqui a trabalhar porque fiquei desempregada, ah, ela disse-me que se eu não quero estudar, depois tenho que arranjar um emprego assim. E eu fiquei a olhar para a miúda com um ar aparvalhado até ela voltar novamente para a aula. Depois mais nada.

 

Quando pensamos em escola, pensamos em educação, pois é, por lá há muita, há com má e sem má. Temos neste espaço diferentes personalidades, há muita gente boa e gente menos boa, como em todo o lado, dirão alguns e é verdade. Aos bons agradeço o que me dão quando preciso de motivação, quer seja em palavras ou em sorrisos e até em mimos, aos outros agradeço na mesma porque me fazem reflectir em como não quero ser assim.

 

Não me lembro da primeira vez que tive de lavar as sanitas, algumas até desentupi-las, varrer, lavar, esfregar, carregar baldes de lixo...e voltar ao mesmo, quem tem crianças em casa sabe como é, agora multipliquem isso por mais de oito centenas. Enquanto lavava as sanitas era ainda capaz de ter de retirar as luvas, atender o telefone, ir dar um recado, ou ver outra situação qualquer e depois voltar a calçar as luvas e lavar o resto das sanitas, entretanto as pessoas iam entrando e saindo da casa de banho como se nada fosse.

 

Num outro momento da minha estadia na escola pedi opinião a uma professora sobre o facto de eu querer entrar na faculdade, ao qual obtive a seguinte resposta: inscreva-se, inscreva-se, que eles agora estão a aceitar toda a gente. E não havia mais nada a dizer. Calei-me. Agora que já terminei a licenciatura estou no bar a abrir carcaças e a por manteiga no pão, não tenho nada a acrescentar pois tenho uma faca com uma serrilha muito boa e a manteiga é dos Açores.

 

Num outro dia ouvi alguém dizer que estava a encorajar os miúdos a estudarem para depois não irem varrer ruas. Portanto esse tipo de emprego é um castigo para quem não estuda, o valor do trabalho é uma coisa mítica, no sentido de que valorizamos o prestigio e não a acção em si. Por isso penso que o livro Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago, deveria  ser de leitura obrigatória na escola. De certo que mudaria muitas mentes.

 

Mais uma vez... quando estávamos a falar sobre o valor do ordenado mínimo, de como era difícil viver com tal quantia, alguém me diz: e acha que para nós não é difícil? respondi que no mínimo alguém tem de pagar trezentos euros de casa e o que lhe sobra é muito pouco para as despesas básicas de sobrevivência... 

 

Sei por verificação ao longo dos anos em que estou neste mundo que as pessoas com menos posses são as mais solidárias, são capazes de repartir e queixam-se menos das agruras da vida. Se alguém se sentir lesado por aquilo que escrevi, pensasse duas, três vezes antes de me dizer, porque em mim essas palavras criaram mossa. Olhar para além de, é um exercício que se aprende com uma certa facilidade.

 

Existe uma desvalorização profissional que se acentua de ano para ano, olha-se assim para esta profissão como algo dispensável. Um cuidador nunca é um ser dispensável. Esta visão redutora tem de ser alterada. Se eu poderia arranjar um outro emprego? Poderia, mas não era a mesma coisa. Não teria o carinho dos miúdos, os risos fáceis nem aquela azafama de vida que acredita no futuro, a isso chama-se: Esperança.

 

 

 

Alice Alfazema

 

 

 

 

 

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