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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Comentários digitais

07.06.20, Alice Alfazema

malmequer.jpg

 

 Aqui estou eu a tentar tirar uma fotografia ao malmequer rebelde que nasceu fora do canteiro, e às  outras flores que seguiram no mesmo caminho, aproveitam agora para crescer que a malta está em casa, confinada, e não anda por aqui por cima de toda a folha. Tenho a acrescentar que o enquadramento não ficou grande coisa porque disparei - ao mais ao menos - porque não tinha os óculos, o que acontece com alguma frequência. Até parece que a flor se está a rir. Ou é impressão minha? 

 

Quando eu tinha dez anos, fui para o 5º ano, nessa altura dizia-se 1º ano do ciclo preparatório, os alunos podiam escolher entre frequentar a disciplina de inglês ou a de francês, escolhi a última, umas turmas eram à tarde as outras de manhã, e à conta disso fiquei sem nenhum colega da primária, todos tinham escolhido o inglês, portanto para além de ser uma escola diferente era também uma turma completamente nova, com alguns alunos repetentes, já grandotes e todos rapazes, o que para quem aparece de novo e tem quase metade do tamanho deles era bastante intimidante. 

 

Não me lembro de como a turma era distribuída em cada disciplina, mas a mim calhou-me um daqueles mastruços grandes e já sabidos. No primeiro dia a coisa não correu lá muito bem, no segundo dia...na aula de matemática, o rapaz enquanto a professora escrevia no quadro, decidiu por a mão na minha perna, não gostei e avisei-lhe, a professora continuava a escrever no quadro, e ele a por a mão na minha perna e a dizer "gracinhas", já o tinha avisado no dia anterior, já o tinha avisado agora, a fúria subia por mim acima, não gosto que invadam o meu espaço, não gosto que me obriguem a nada, e não gosto de gente armada em esperta, peguei na caneta, uma Bic azul, empunhei-a no ar e espetei-lha no braço, como quem dá uma vacina, senti o bico da caneta a perfurar a carne dele, ele levantou-se e gritou ao mesmo tempo, ficou tudo a olhar, a professora virou-se e perguntou o que se tinha passado, ele respondeu primeiro, disse que eu lhe tinha espetado a caneta no braço, depois foi a minha vez de dizer o que ele me tinha feito, e de como eu o tinha já avisado para parar com aquilo, porque não queria que ele mexesse na minha perna, estava tudo em silêncio, apenas a minha voz, calei-me e a professora falou: que podíamos levar falta a vermelho, e depois íamos os dois para a rua, mas como ainda era a segunda aula de matemática isso não ia acontecer, mas que não se voltasse a repetir. Eu disse que não queria mais sentar-me ao lado dele. Naquela aula não mudei de lugar, mas nas outras seguintes nunca mais me sentei lado dele, entretanto até a aula terminar o rapazito ameaçou-me que lá fora logo via, com a fúria que havia em mim já nada ouvia. A aula terminou e fomos para o pátio, qual não é o meu espanto quando todas as raparigas me rodeiam e me protegem do rapaz, uma que era da altura dele até o ameaçou, escusado será dizer que nunca mais me chateou, nem a mim nem às outras, (são livres de pensar que eu não deveria ter feito aquilo).

 

Naquele tempo era normal haver apalpões à saída da escola, os rapazes juntavam-se propositadamente para isso, havia uma impunidade e até condescendência perante estas atitudes, assim como acontecia nos transportes públicos e provavelmente noutros locais. Já nem sei porque me lembrei de contar isto, mas tem algo de muito parecido com o que hoje acontece nos comentários nas redes digitais, onde a intimidade de cada um é enxovalhada perante os outros, quando digo intimidade refiro-me não só à pessoa em si, mas àquilo que escreve, àquilo que partilha, à sua opinião perante factos da sua vida e da maneira como vê o mundo, onde outros sem se importarem manifestam-se sem o mínimo de cuidado com a linguagem que utilizam e querem impor-se como se lhes fosse um direito assistido, achando-se frontais, mas na realidade trata-se apenas de utilizar por palavras  a sua malvadez.

 

O gozo e a satisfação que se dá atrás de um ecrã manifestamente será a mesma que poderia haver entre uma discussão de rua, mas aqui é mais fácil, e o alcance é maior que apenas uma ou duas pessoas, a coberto de umas linhas julga-se poder dizer tudo o que se pensa sem que isso deva parecer outra coisa do que uma mera opinião. A mesma bitola deve ser aplicada quando invadimos o espaço de alguém seja no mundo real ou no virtual, no entanto aqui as palavras, as "opiniões" impostas, os juízos de valor, são como o vírus que anda por aí, sabemos dele, mas não sabemos bem por onde anda. 

 

 

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