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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

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Coisas do nosso tempo - Ser Polícia em Portugal

24.11.19, Alice Alfazema

«Sou polícia há 17 anos.

Comecemos pelo vencimento: em 2003, acabado o estágio, auferia facilmente 900 euros, tinha 20 anos, solteiro, fui colocado em Lisboa antes dos voos low cost e do airbnb. Alugava um quarto por 100 euros e a farda ainda valia alguma coisa. Raramente era ofendido e, quando era, normalmente era num quadro de alcoolismo, onde todos somos uns fortalhaços.

Dezasseis anos depois, trago para casa 1080 euros. Tenho duas filhas, casa para pagar e todas as despesas normais de uma família. Ou seja, em 16 anos de serviço recuperei 180 euros do meu rendimento. Dezasseis anos a trabalhar noites, manhãs, tardes, em horários sempre diferentes de dia para dia, Natal, ano novo, directas em cima de directas, para ir a tribunal com os criminosos apanhados de madrugada.

Hoje um polícia que inicia a sua carreira ganha de ordenado base 789 euros. Vai para Lisboa, muitas vezes com casa para pagar na terra, onde ficam os filhos e a mulher, e ainda tem de pagar a renda na capital cujo mercado imobiliário está super-inflacionado.

O polícia conduz carros com 25 anos. Sem segurança e incapazes de dar a resposta adequada no confronto com o criminoso. O polícia não tem acesso a bases de dados, numa altura em que a informação é crucial no combate ao crime. O polícia não tem acesso directo à base de dados do IRN, não tem acesso à base de dados de cidadãos procurados e com mandados de detenção pendentes, mas o escrivão do tribunal tem. Deve ser mais idóneo. O polícia até identifica um criminoso, liberta-o a seguir, pois a lei assim obriga, e mais tarde, quando ele não aparece em tribunal, onde o polícia se desloca, sem ter dormido, descobre que o indivíduo é um criminoso procurado.

O polícia patrulheiro recebe da instituição uma farda, uma arma e um coldre. Tudo o resto é pago por ele. Até poderia requisitar algum material, se houver disponível, mas no final do serviço tem de entregar. A instituição dá ao polícia uma arma e três carregadores, mas não fornece porta-carregadores, têm de ser os polícias a comprar, como as algemas, o porta-algemas, as luvas, a lanterna, o gás pimenta, o bastão extensível. Claro que as instituições também os têm, mas não para todos.

Sou polícia e no ano passado gastei 700 euros em material. Recebi 600 de subsídio de fardamento.

Há falta de equidade: em 17 anos recuperei 180 euros de rendimento, na mesma instituição há elementos que recuperam 1600 euros.

Em 17 anos fui promovido uma vez. Sem problemas disciplinares e com cinco louvores. O colega que me deu o curso foi promovido quatro vezes. Claro que não posso ganhar tanto como ele, óbvio, mas caramba: 1400 euros de diferença é muito. Se ele duplica, ou triplica, o seu rendimento em 17 anos, eu também deveria ter esse direito... e mesmo assim nunca ganharíamos o mesmo.

Claro que há policias incompetentes... mas com cursos de sete meses querem o quê? James Bonds? Sete meses para preparar um homem a conhecer a lei, para saber relacionar-se com o cidadão, com a pressão. Sete meses para aprender a reagir em segundos.

E depois quem comanda, ou manda, tem cursos de cinco anos. E nunca interagem com as pessoas, nunca passam pelas situações críticas, nunca se expõem ao perigo e ao juízo público.

Por que não cursos de três anos para todos, preparar bem os polícias para se poder exigir deles mais e permitir aos melhores chegarem lá acima?

Com isso não precisaríamos de tantos chefes, porque estaríamos preparados para resolver as coisas, sem o paizinho atrás a ver se está tudo bem.

Mais de 50% do efectivo da PSP são chefes e oficiais. Impensável.

Isto não é o que acontece nos países mais evoluídos.

Aqui vocês ligam para o 112 e a vossa chamada, até chegar ao polícia que está na rua, demora dez minutos.

Num país de jeito o operador 112 transmite de imediato a ocorrência ao carro-patrulha, até enquanto fala com a vítima. Num país moderno, o 112 escolhe o carro-patrulha mais perto. Aqui não: se a rua é da PSP vai o carro da PSP, mesmo que o carro da GNR esteja a dois minutos.

Num país deste tamanho existem duas forças idênticas. Absurdo.

Bater num polícia dá até cinco anos de prisão... nunca acontece e, se acontece, lá vêm as penas suspensas. Polícia não tem direito a advogado, tem de o pagar. Não tem comparticipação em consultas de psiquiatria, no país dos suicídios de polícias.

Ser polícia é uma merda neste país.»

 

 

Texto retirado do blogue Delito de Opinião

 

 

 

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