Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Coisas do nosso tempo - Alessandra Korap

24.08.19, Alice Alfazema

 

“Mas nesse ano de 2019 a situação piorou mesmo. Porque as pessoas estão invadindo os territórios indígenas, estão invadindo assentamentos. Os indígenas não têm mais sossego. E esse crime que está acontecendo é a partir da fala do Presidente. Quando o Presidente diz que não vai demarcar um território [indígena], ele incentiva as pessoas a invadir as terras indígenas. Ou quando eles cortam a verba que era para o controle do desmatamento. E agora ele quer botar a culpa nas pessoas que moram aqui. Mas esqueceu que ele incentiva os madeireiros, os garimpeiros, os grileiros, a desmatar mais a Amazônia.”

 

“Ele diz que não precisa da Amazônia, que a Amazônia precisa de ser vendida. Mas nós estamos dentro. Indígenas, quilombolas [descendentes de escravizados], animais, água. Os animais estão pedindo socorro. Quem pode cuidar, preservar a Amazônia são os indígenas a que hoje eles estão tirando todos os direitos: do território, da educação, da saúde. Recursos, também, de projectos que a gente faz para combater. A gente está fazendo auto-demarcação com as nossas próprias mãos. E tem um Presidente dizendo que não vai demarcar terra. Um Presidente colocando a culpa nos outros, que na própria fala dele cospe ódio, só tem ódio no coração, usa o nome de Deus em vão, diz que respeita a Constituição, mas nunca respeitou. Agora quer botar culpa em ONGs, em nós, indígenas, mas a gente sempre denunciou esse invasores e nunca teve resposta. E agora são os nossos corpos que estão na frente, os nossos animais que estão morrendo, os nossos filhos pedindo socorro. E esse governo está matando cada vez mais a Amazônia, matando os povos indígenas, matando o que é a vida. A gente não sabe mais para onde pedir socorro. Mas vai continuar lutando”.

 

Palavras de Alessandra Korap, uma mulher indígena, do povo munduruku, de uma região a meio do Tapajós, o texto foi retirado daqui.

 

8 comentários

  • Imagem de perfil

    Alice Alfazema

    24.08.19

    É muito triste termos que chegar ao fundo do poço, para que se alertem consciências, é revoltante que tenha de doer para que se faça alguma coisa. Penso que estamos num tempo de viragem e de acção. Espero que se consiga porque não podemos mais manter esta inércia perante a Natureza.
  • Imagem de perfil

    Sarin

    24.08.19

    A Natureza e o Outro.

    Raramente ouves falar das florestas (ou dos glaciares!) e dos povos que nelas habitam - "oxigénio", "biodiversidade", "pulmões". Ignoram-se as culturas que vivem em comunhão com o ambiente onde estão inseridas, são "atrasados".

    Muito triste, Alice.
    E, como disse a Ó Menina, revolta ver aquela gente que nem pensa de onde vêm as peles que usam nas 300 botas ou onde e como foram feitos os seus telemóveis topo de gama ou no que acontece para que coloquem pedrinhas de gelo nas bebidas bonitas que bebem nos seus habituais sunsets e after-hours e etcs, aparecerem agora consternados e empunhando os mesmos telemóveis e as mesmas botas e as mesmas bebidas com o mesmo gelo.
    O Ambiente transformado em moda. Também não vamos lá assim :(
  • Imagem de perfil

    Alice Alfazema

    24.08.19

    Estive aqui a ver no meu blog a tag: Natureza, tenho vinte páginas, cada uma com dez títulos, tirando todas as outras às quais não dei esse termo de pesquisa, há muito que me interesso sobre este assunto, desde criança que venero as árvores e os seres vivos que por elas passam, para mim este é um assunto que me comove, a estes povos acho-os de uma sabedoria imensa, da qual se aproveitaram farmacêuticas e outros empreendedores. É muito injusto o que lhes está a acontecer, do mal o menos, que se interessem agora, que se movam e se mobilizem, que se discutam as acções feitas pelos seres humanos e se promovam soluções, que se ergam vozes quantas mais melhor, e mesmo que sejam essas, talvez cheguem a mais gente, por vezes não interessa o caminho, o mais importante é o foco. Se transformarmos o ambiente em moda poderemos estar a criar hábitos e daí outra maneira de ver o mundo. Muita gente não sabe de nada porque de nada se fala, ora quanto mais falarmos a mais gente chegamos. É importante darmos a conhecer a Natureza, não apenas numa disciplina escolar obrigatória, que muitas das vezes nem se sai das páginas do livro, é importante comunicar de outra forma através das experiências e das vozes dos outros, é um outro paradigma que temos de encarar para conseguir captar a atenção das mais variadas comunidades.
  • Imagem de perfil

    Sarin

    24.08.19

    Com transformar o Ambiente em moda referia-me aos milhares de apelos que surgem hoje e amanhã são esquecidos. Porque nada são que apenas mais uma forma de dizer "ó eu aqui, a preocupar-me com o que acontece"

    Aqueles que se preocupam - como tu, como eu, como tantos mas ainda assim muito poucos e incapazes de produzir os soundbites que arrastam multidões - aqueles que se preocupam preocupam-se todos os dias e vão além dos postais. Agem à sua própria escala.

    É importante, urgente!, que o assunto seja discutido - mas não como "oh, a Amazónia está a arder, coitadinhos dos bichinhos e coitadinhos de nós" enquanto jactos particulares cruzam os céus para cimeiras sobre o assunto. O Planeta está a arder há muito. Mas o debate tem consecutivos baldes de água fria. E qual a mensagem que os VIP tentam afinal passar, se as palavras não batem certo com os actos? O assunto não ganha visibilidade, apenas é mais uma oportunidade para "aparecer".
    Sean Penn, Leo di Caprio, Mark Ruffallo... são actores empenhados e cujos comportamentos tentam acompanhar as palavras; aliás, têm mais acções que palavras. Os outros... é como nos bailes de caridade: gastas 100 para dar 5.

    A doença é comum, Alice - a necessidade de atenção. Enquanto se cultivar o umbigo, o Ambiente nunca estará na ordem do dia, por muitos instas e tuítes e postais consternados que publique quem poderia promover o debate.

    E ainda assim, vamos escrevendo, vamos agindo. Talvez o vizinho do lado se resolva também...

    :*
  • Imagem de perfil

    Alice Alfazema

    24.08.19

    Gente dessa vai haver sempre, por mais que te revoltes contra isso nada podes fazer, quanto ao resto podemos e devemos fazer mais, e sabes? Penso que já fomos menos. E isso é algo bom. É aí que nos temos de focar.
  • Imagem de perfil

    Sarin

    24.08.19

    O meu medo é esse "sempre" - o Tempo está contra nós, o ponto de não retorno exige sprints record mas o pelotão vai a passo e ainda tropeça nos que vão às arrecuas.

    Desculpa, foi um desabafo de quem vê acontecer exactamente o que temia. Prometo focar-me no engrossar do pelotão (embora a sua eficácia passe também por desmascarar, apontar a dedo o que nos faz tropeçar).

    Beijos
  • Imagem de perfil

    Alice Alfazema

    24.08.19

    Não tens que pedir desculpa, estamos a conversar, é o facto de nos sentirmos impotentes perante a ignorância humana.

    É isso mesmo, é desmascarar, apontar o dedo, reclamar, e exigir, para que não fique esquecido, como em qualquer luta não podemos começar sem acreditar, senão estamos derrotados à partida e ninguém nos acompanha.

    Um abraço
  • Comentar:

    Mais

    Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

    Este blog tem comentários moderados.