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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Árvores andantes

18.10.20, Alice Alfazema

arvoreandante.jpg

 

Ilustração Laura J. Bobbiesi

 

A menina olhou a casca rugosa daquela velha árvore e fez-lhe uma vénia, o vento soprou naquele momento dando-lhe a sensação que a árvore lhe respondia. Sentia os socalcos das raízes por debaixo dos seus pés, numa ligação permanente à Terra Mãe. Até agora ainda não tinha compreendido porque não faziam das árvores monumentos vivos. Via nelas obras-primas da natureza, em cada uma havia uma sala cheia de pormenores e de histórias por contar. E perguntou à árvore quantos anos tinha, tenho mais de trezentos Invernos, respondeu-lhe ela numa voz cava, enquanto os seus ramos estremeciam, nessa altura alguns pássaros saíram dos ramos densos, assustados com aquele tremor. E continuou a menina: tanto tempo...então, já viste muita coisa, pois vi, respondeu-lhe a árvore, também  já fui pequenina como tu e cresci à sombra de outras árvores mais frondosas, conheci pássaros que agora fazem parte dos livros de história, e que hoje dizem os homens, estão extintos, vivi temporais violentos, e Verões escaldantes, perdi alguns troncos  que foram levados por homens para se aquecerem, vi a fome dos homens no seu olhar, vi também o modo como odeiam os seus semelhantes, e vi o amor entre eles quando se sentavam à minha sombra a namorar, vi os filhos a crescer e os pais e avós a envelhecer, vi a morte de alguns. E viste isso tudo sem saíres do lugar? Como sabes tanto do mundo sem nunca saíres daqui? Os homens falam comigo, outras vezes oiço-os a falar entre eles. Mas isso não é o suficiente para saberes tanto. Porque dizes isso? Tu não sabes o meu segredo, mas eu vou contar-te: cada árvore possui um sistema de comunicação subterrâneo, são as nossas raízes, sem elas não somos nada, e é por aí que falamos umas com as outras, a nossa comunicação interna pode atingir grandes extensões  e juntas sabemos  tudo o que se passa com cada uma, essa informação fica então gravada no nosso tronco principal, porque é aquele que recebe essa energia comum, as pessoas não têm noção daquilo que é o mundo natural, porque perceber exige muito mais do que olhar. Então a menina olhou para a árvore com o coração,  fechou os olhos para poder sentir o que poderia estar para além do tempo, uma brisa passou leve entre a folhagem, devagarinho a menina abriu os olhos e sentiu as suas mãos enrugadas, como o tronco da árvore, nesse instante soube que o tempo tinha passado demasiado depressa. 

 

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