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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

A taberna

06.05.17, Alice Alfazema

 

 

Quando eu era miúda morava por cima dum  Wine Bars. Assomava-me à  varanda para ver os bêbados passarem, uns cantavam, outros gritavam, os mais trágicos vomitavam. Os ziguezagues eram uma delicia, e eu sempre na expectativa do primeiro tombo, mas eles aguentavam, eram marinheiros valentes, cavalgavam as ondas do álcool como quem faz surf. Por vezes as mulheres iam buscá-los ao Wine Bars, era uma tarefa difícil, demorada, agitada e cambaleante.

 

Entre o tinto e o branco haviam cartadas e discussões sobre futebol e gajas boas. O Wine era retirado directamente da pipa para o copo, quem queria uma litrada levava a garrafa de vidro e era só encher. Para mim entrar no Wine Bars era uma tarefa penosa, mas tinha que ser e o que tem de ser tem muita força. Houve um dia em que fui buscar uma litrada, cheguei rapidamente ao balcão e queria sair ainda mais depressa do que entrei. Lembrava-me que havia vinho branco, mas não me lembrava qual a designação do outro, então disparei: Bom-dia! Quero um litro de vinho preto...Pronto aquilo ficou para todo o sempre. Ainda hoje estou traumatizada. 

 

 

Alice Alfazema

5 comentários

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    Alice Alfazema

    08.05.17

    Ó Janeka, a piada do texto está numa coisa que se chama de ironia(?) daí o Titulo.

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    Janeka

    09.05.17

    Tudo bem Alice. É que estou ficando um pouco inquieto com a moda de entremear frases inglesas nos textos que deveriam ser exclusivamente da nossa língua, que é suficientemente rica para não precisar de muletas. Longe de mim qualquer exacerbado sentimento nacionalista, mas faço questão de preservar A NOSSA identidade, porque, tal como Pessoa, também sinto que "A minha pátria é a língua portuguesa". Talvez seja um pouco mais tolerante quando ver algum inglês misturar palavras ou frases portuguesas naquilo que escrevem.
    Cumprimentos
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    Alice Alfazema

    09.05.17

    Sendo assim, vou servir um Moscatel.

    À nossa!
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    janeka

    10.05.17

    O taberneiro, em desespero, saltitava entre os arruaceiros, não parando de ganir “Ai mundo sagrado. Ai mundo sagrado...” tentando em vão parar o desacato e o quebra quebra.
    A algazarra, as pragas raivosas, os palavrões mais corrosivos da terra e fora dela, a madeira arrastada e estilhaçada, junto com um ou outro copo, foi como um remoinho de vento que tivesse passado por ali, mas que de repente parou como tinham começado, e tudo voltou à normalidade.
    Na pós-calma da arruaça, contudo em perigo latente de se reacender, ainda se olhavam embezerrados e um pouco ressentidos, quando avançou um montanheiro de Sta. Catarina, que por ali costumava aparecer. De porte quadrado e grandes manápulas calejadas, tinha ficado fora da discórdia, em parte por estar sóbrio e em parte por meter medo a sua bitola física, pendendo para o avantajado.
    Em voz grossa, entendeu botar discurso e fê-lo, num ar autoconfiante, vagamente moralista.
    Em tom de sermão de padre, começou por dar ao vinho, as culpas da guerreia.
    - Cá eu, nunca estive escarado (bêbado), porque bebo Água do Castelo ...
    e deu um arroto pretensamente convincente, que fez soar mais forte com um encolhimento da pança pantagruélica.
    - A Água do Castelo, faz bem ao bucho, e à tripa e nunca almariou (outro termo popular para bebedeira) ninguéééééém....
    Arrastava a última palavra do discurso, olhando em volta com um ar dominador, na certeza de quem sabe
    - ...é boa pró fastio e quando a gente arrota, até se sente mais lévezinhooooooo....
    E por aí fora… até que o Décio, intelectual e boémio, sempre vestido de casaco preto, gravata e chapéu de coco, mas sebento de fazer fugir os cães, manifestamente enjoado de tanta sandice, gritou do fundo do estabelecimento
    - Esteja calado... seu subversivo de gosto inócuo...!!!
    O Golias, apanhado a meio discurso, parou, franziu a testa tentando entender... depois de coçar o cachaço e alguma hesitação entre continuar o sermão e deixar o seu crédito na mão do Décio, explodiu
    - submersivo de gosto inó...inó..inóoocu, és tu meu grande cabrão.
    E avançou para o infeliz como elefante em loja de porcelana, reacendendo a pancadaria. Desta vez, mais feroz que nunca entre os da terra, solidarios com o Décio e o alarve de Sta. Catarina.
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