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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

A rotunda e as ovelhas

25.08.15, Alice Alfazema

Num dia destes, enquanto passeávamos o Ginjas encontrámos quatro ovelhas a comer a relva da rotunda. Fresca e viçosa a relva parecia apetitosa, e deveria de o estar, pois a devoravam  num frenesim  melódico, encabeçado pelos chocalhos pendentes nos pescoços. Eram só as quatro,  fugidas do resto do rebanho. A música campestre pairava no ar, a pauta eram os dentes e as mastigadelas vorazes. O Ginjas, aquele dez reis de cão, ladrou, e o vozeirão fê-las parar. Silêncio. O cão ladrou outra vez. Deixá-mo-lo andar até elas. Fugiram. Mais uma ladradela e mais uma fugida. O medo era o seu pastor. Bastou apenas um som para as assustar, nada de mais, apenas isso. Formatadas para sentirem o medo como objectivo de vida. Talvez se tenham distraído um pouquinho, mas ele devora-as, assim como devora todos aqueles que se encontram na rotunda esperando que outros lhes indiquem o caminho, lhes criem as experiências que desejam, que lhes digam aquilo que acham que merecem ouvir, que não ousam por vergonha do falhanço, da perda, da dor. Petrificados ficam na relva, quando afinal a rotunda tem mais que um caminho para ousar. O medo é gelo. Mas ainda temos o Sol.

 

Alice Alfazema