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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

A pandemia das ideias e dos outros

COVID-19

09.11.20, Alice Alfazema

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As medidas quando são tomadas de modo contraditório, denotam a desorientação das ideias, levando à desorganização dos sistemas. Podemos ir ao supermercado, mas não podemos andar na rua, podemos ir trabalhar em transportes cheios, mas não podemos ir ao restaurante durante o fim-de-semana. As escolas estão cheias, mas não são focos de vírus. Ando bêbada e não sei qual a bebida que ando a tomar. 

 

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Não morremos do mal, vamos morrer da cura. Podes estar com a tua família, mas se viveres sozinho deves manter-te assim. Ouves falar que as camas dos cuidados intensivos estão esgotadas em certo hospital,  tens curiosidade em saber quantas são e sabes depois que resumem-se a umas dez. Questionas-te, afinal há muitos doentes, ou poucas camas? Noutros há camas, mas não existem recursos humanos. E passamos meses nisto.

 

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Fala-se em fome, perda de empregos, aumento de outras doenças, e um galopante agravamento da  miséria. Isso preocupa-me. Quais serão as medidas restritivas da miséria? Mais uma vez tudo se baseia em números. O pânico alastra-se, assim como a ignorância. 

 

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Temos a mania que não somos animais, no entanto apanhamos os mesmos vírus. Este ser que somos e elevado à imagem de Deus aparece agora indefeso perante um organismo invisível. Temos então mais um fantasma para nos assombrar os dias. 

 

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E se Deus for a terra que pisamos? E se o bater sísmico que se ouve a cada vinte e seis segundos for o coração de Deus? Estará Deus farto de nós? Os fantasmas são agora os sacos plásticos que transportamos para casa, os materiais que lavamos transloucadamente, mesmo que no intimo lá nos passe pelos neurónios que o vírus poderá já estar inactivo ou sem grande carga viral. 

 

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Quantas máscaras mudamos por dia? Nem sei. Desapareceram dos jornais televisivos as crises humanitárias, a fome e a seca em África, e tantos outros assuntos que levam a mortes diárias não contabilizadas para pandemia. "Cá se vai andando com a cabeça entre as orelhas", fingindo que só temos um problema quando somos levados a pensar que há apenas um problema por resolver. O sentido crítico deixou de existir, passamos assim a coexistir com o pensamento único, que é agora a direcção que nos apontam, e a qual não devemos - nunca - questionar, como forma de sermos postos de parte, tal como quando temos um vírus desconhecido. 

 

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As ilustrações são de Alan Macdonald

 

 

 

 

 

 

 

 

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