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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

A inteligência humana

26.04.20, Alice Alfazema

andorinhas.jpg

Ilustração Catrin Welz-Stein

 

A minha rua tem andorinhas, já teve mais, agora resumem-se a poucos ninhos. Antes haviam pequenos cursos de água, onde as andorinhas iam buscar o barro para fazerem o ninho. Agora está tudo tapado, ou então cobriram o chão das linhas de água com pedras e rede, para ficarem bonitas. O ano passado alguns prédios foram pintados na Primavera, e os telhados foram lavados a esguicho de pressão, levaram todos os ninhos que existiam naqueles locais atrás de si. Por mais de um dia as andorinhas andaram a bater contra a parede onde tinham o ninho. Ninguém quis saber, nem moradores, nem pintores, nem responsáveis pela obra, nem responsáveis da autarquia. Os animais tiveram de continuar com as suas vidas. A nós não nos é permitido saber a que tipo de inteligência pertencem. Somos tão estúpidos. Nessa mesma Primavera cortaram as árvores da avenida como se tivessem a fazer uma amputação, raparam tudo o que tinham para rapar, não sobrou um ramo onde os pássaros pudessem poisar, apresentei queixa, durante dois dias pararam com aquilo, depois disseram-me que era a poda, e que era mesmo assim, informaram-me ainda que as pessoas tinham feito queixa que as árvores retiravam a luz das casas, são árvores de folha caduca, e ficam a mais de seis metros das paredes dos prédios, esse Verão foi infernal, o interior das casas tornou-se abafado, as árvores tinham poucas folhas, poucos ou nenhuns pássaros andavam por ali.  Somos tão estúpidos. 

 

Dá-me vontade de rir quando nos auto-intitulamos os seres mais inteligentes do planeta, e há até quem diga do universo, essa é de chorar a rir, quando não conseguimos compreender aquilo que se passa mesmo ao nosso lado, como conseguimos saber o que se passa em todo o lado? E afinal o que é a inteligência? Eu por exemplo não considero uma pessoa mesquinha de inteligente, porque mesmo que consiga perceber de muita coisa e em diversas áreas, é pobre de espírito, não consegue revelar-se para além do seu umbigo. 

 

Ninguém consegue perceber verdadeiramente as coisas sem a experiência, ou então através da observação, talvez por isso ser-se inteligente nem tenha muito a ver com estudos e títulos académicos, ou com os pequenos e grandes poderes, mas antes com a absorção de tudo o que há em nós e para além de nós, coisa que só começamos a compreender lá mais para o final da nossa vida, os verdadeiros sábios são aquele que buscam sempre ir para o lugar o outro. De resto somos todos tão estúpidos.  

 

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