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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

A fita vermelha

01.12.16, Alice Alfazema

 

 

Há muito tempo atrás, ia eu de comboio para o trabalho. A viagem era um pouco demorada, os comboios não eram tão rápidos como hoje em dia, dava para dormir, fazer malha, observar e conversar. Não haviam telemóveis, tablets nem fones, a malta entretinha-se com a paisagem. Depois de as minhas colegas descerem numa determinada estação eu ainda tinha mais de vinte minutos até chegar ao meu destino, durante esse período estava sempre comigo mesma.

 

Naquele dia a carruagem estava quase cheia, ao pé de mim os lugares ficaram vagos. Um homem muito magro e vestido de negro veio pela carruagem fora e sentou-se em frente a mim. Na mão trazia posto um cateter, o seu ar era cadavérico, de tão magro que estava. Começou a falar comigo sobre SIDA, na altura sabia-se pouco sobre o assunto, eu era jovem e o que sabia sobre a doença era aquilo que aparecia nas notícias, que era uma doença de homossexuais. Mas ele disse-me que não o era, que o que se dizia era mentira, falou-me de muita coisa e eu ouvi. 

 

O que mais me marcou nisto tudo foi ele ter-me agradecido por tê-lo ouvido, por não me ter levantado do meu lugar para me sentar noutro, situações essas às quais ele estava habituado. 

 

Isto foi há tanto tempo, muitas vezes me lembro disto, foram vinte minutos da minha vida. Na vida todos os minutos contam e por vezes por dez minutos apenas temos de fazer mudanças muito fortes. Não desperdice a sua - informe-se e proteja-se.

 

 

Alice Alfazema