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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

À capacidade da raiz

25.05.19, Alice Alfazema

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Ilustração Pramod Kurlekar

 

 

 

Poderemos supor que nas plantas, o atractor ou a finalidade será a busca de luz (fototaxia). A árvore cresce em direção à luz até que um tronco dá origem a dois ramos e esses a outros dois, e assim por diante, obedecendo a uma lógica fractal de bifurcação. Contudo, o tronco e os ramos não se desenvolvem sem raiz. Também as raízes parecem obedecer a padrões baseados na bifurcação em direção a uma finalidade (busca de água - hidrotaxia). Para assegurar o crescimento do tronco, mantendo a integridade identitária da árvore, sem fracturas nem colapsos, esse crescimento deve ser proporcional à capacidade da raiz se fixar e oferecer como suporte e motor válido daquela. Obviamente que não pode ser desprezada a qualidade do meio.

A árvore parece assim desenvolver-se num equilíbrio entre forças com finalidades de sentido divergente mas complementar e interdependente.

Podemos também olhar para os animais, entre os quais nos incluímos, a partir do mesmo modelo obedecendo a estruturas idênticas nas várias dimensões de análise. Por exemplo, a estrutura corporal: um tronco com cinco subdivisões (cabeça e quatro membros) e subsequentemente os membros com outras cinco subdivisões – os cinco dedos.

Se observarmos do ponto de vista da “estrutura da árvore” da transmissão de vida nos animais sexuados, podemos também considerar que obedece a um padrão fractal com uma finalidade: o encontro com o complementar. O indivíduo nasce de dois indivíduos (pai e mãe) que nasceram de outros dois indivíduos (pai e mãe), e assim sucessivamente. O mesmo indivíduo poderá repetir o padrão dando origem a outros indivíduos, prolongando a vida “indefinidamente”.

A propagação da vida faz-se obedecendo a uma lógica preponderantemente convergente, de encontro com o outro complementar. “Tout se qui monte converge inévitablement” (Rosa, Comunicação pessoal, citando Teilhard de Chardin).

A estrutura fractal da hereditariedade não se limita a transmitir informação do passado, do pai e da mãe, ela também cria informação onde antes não existia. Essa memória criadora é informação que é passado, presente e futuro. O DNA são as “raízes” do novo indivíduo, é a força conservadora que o sustenta no passado, que o alicerça, em contraponto com a força que o atira para fora de si em direção ao mundo.

 

 

Vitor Moreira, Caos, movimento e criação, Revista Portuguesa de Psicanálise e Psicoterapia Psicanalítica, 2017 8(1): 33-40.