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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

A beata de cigarro também é lixo

Rede Biatakí - Setúbal

12
Set21

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Hoje surpreendi-me com este bote, em Setúbal, um barco cheio de beatas que simboliza no fundo uma pequena parte daquilo que pode ir parar às águas dos nossos ribeiros, rios, mares, oceanos e daí integrar-se na cadeia alimentar, levando à morte de muitas espécies que se alimentarão delas como se de algo natural se tratasse. Uma a uma. De dimensão reduzida. Escondidas na areia da praia, ou entre as pedras da calçada, levada para os bueiros pelas águas da chuva, ou até pela acção humana. Pensar que algo tão pequeno não tem a mesma proporção em importância é errado. Como podemos ver, ali naqueles frascos provavelmente estarão milhares de acções de indivíduos que não reflectiram naquilo que estavam a fazer. E mesmo que seja só uma vez, uma vez vezes muitas são números infinitos.  O objectivo destas campanhas de voluntariado é limpar o ambiente, o meu aqui neste postal é demonstrar que existe muita gente que dá do seu tempo para o bem comum. Obrigada. 

 

 

Árvores monumentais - Araucária

Setúbal

09
Ago21

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É uma pena que em meio urbano não tenhamos mais destes monumentos vivos. Assim como se preservam monumentos feitos pelo "homem" também se deveriam preservar as árvores antigas. Tal e qual como quando visitamos um qualquer monumento e imaginamos o que por ali se passou, e por vezes até sentimos a energia que dali emana, também é assim com as árvores, quem nunca se sentiu atraído por um tronco e não resistiu a tocar-lhe, e ao fazê-lo é possível entrarmos na memória do tempo.

Olhando assim, vemos o quanto somos pequenos, na foto podemos ver o quanto ela é alta, e em como os seus ramos se erguem altivos ao céu, consigo imaginar a vista lá de cima, e em como deve ser um privilégio ter um ninho ali. Sabemos que o abate das árvores de grande porte em meio urbano tem levado ao declínio da diversidade de aves de rapina, e ao aumento da população de pombos, o que em alguma cidades já são uma verdadeira praga, Setúbal é uma dessa cidades. 

Não é justo, que se abatam estes majestosos seres não dando oportunidade à biodiversidade. Na foto vemos um homem idoso, os seus anos mais vigorosos já os viveu, mas e esta jovem alta e elegante, quantos anos terá ainda por viver?

 

Os mais antigos

18
Abr21

 

Hoje, fui comprar legumes e peixe fresco, aquilo ali é o meu templo, onde as cores da criação se acumulam nas bancadas dos produtores locais, dando um ar multicultural à "Praça" - em Setúbal o mercado municipal  é chamado de praça pelos mais antigos, e assim de repente lembrei-me, que as pessoas idosas em Setúbal eram chamadas de "mais antigos", porque não é velho de deitar fora, nem idoso de limitado, mas antigo de nobre, que pode ser valorizado - vi então nas mármores das bancadas  do peixe, pescadinhas de rabo-na-boca, empilhadas em cima umas das outras, mais longe haviam salmonetes, noutras pampos, os peixe-espada tinham os olhos tão esbugalhados que mais pareciam lobos-maus do mar, os chocos ainda luziam, abroteas, corvinas e pargos, luxuria marinha dos mais variados sabores, comprei pata-roxa para fazer de caldeirada. 

À medida que ando por ali, vejo que as pedras que forram aquele chão estão lisas e brilhantes, parecem um tapete já muito usado, acusando os milhões de vezes em que foram pisadas. Por todo o lado a vida vibra, as centenas de flores que apelam ao olhar, é uma primavera em cada ramo. Ramos de hortelã perfumam o ar, junto com alecrim, poejo, e outras das quais não me lembro do nome. Pão fresco de várias regiões, queijos frescos e secos, de ovelha, de vaca, de cabra, curado, meia cura, amanteigado. Mel de rosmaninho para acompanhar.

Ao fundo vejo o belíssimo painel de azulejos azuis e branco, onde os marítimos se encostavam para fumar e falar sobre a faina, as vozes do mar, as vozes no ar, não tanto burburinho como antes da pandemia, apenas um apontamento daquilo que já foi. Trás-me à memória as minhas vozes, aquele som transporta-me para lá do tempo. A minha mente vagueia acima, buscando reconhecer alguma, mas são apenas fragmentos. E foi ali que aprendi a escolher o peixe, os legumes e as frutas. A andar depressa por entre a multidão, a saber decidir qual o melhor preço, comparando a melhor qualidade. 

E os anos passaram e sinto que começo a ser uma pessoa antiga, carregada de memórias e saudades que não posso matar, não que isso me deixe mais triste ou mais alegre, mas antes que me dê vontade de conta-las a alguém.