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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

As minhas flores

20
Abr21

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Eu não tenho jardim, mas tenho bosques, vales, planícies e serras, onde colho as minhas flores, colho-as com a objectiva, este ano redescobri o prazer de observar as flores silvestres, sentindo uma alegria quase infantil por ver uma diversidade tão grande de pormenores que nos são alheios na pressa do dia a dia. Há algo comum a todas elas - Liberdade.

 

Espírito das danças, espírito das estrelas,
espírito das crianças, espírito das velas,
espírito que te escondes nos risos e nas tranças,
nas músicas mais intensas e mais belas,
ó espírito que persistes, não desistes, e não cansas
de transformar esquecimentos em lembranças,
de trocar, por amor, desconfianças
e de pintar essas mudanças
com doces e brilhantes aguarelas,
espírito do mar, espírito do ar, das coisas mais singelas,
leva-me contigo ao país da noite, quando avanças
por entre estrelas apagadas, sem esperanças,
que eu gostaria tanto, mas tanto!, de acendê-las.
 
 
Poema de Joaquim Pessoa

Lugar

19
Abr21

amarelinha.jpg

Volto sempre aqui. Ao meu lugar de mim.
A serenidade pousa na rocha mais alta. No meu lugar.
O vento cresce na tarde e evoca a noite. No meu lugar.
O amanhecer despe a noite como uma camisa de cambraia. No meu lugar.
O amanhã trará no colo uma braçada de flores.
O ar de alfazema deitar-se-á na minha cama.
Nos meus lugares espalhados.
Em partículas de mim. Eu. O outro nome da noite.
 
 
Poema de Lília Tavares

Os mais antigos

18
Abr21

 

Hoje, fui comprar legumes e peixe fresco, aquilo ali é o meu templo, onde as cores da criação se acumulam nas bancadas dos produtores locais, dando um ar multicultural à "Praça" - em Setúbal o mercado municipal  é chamado de praça pelos mais antigos, e assim de repente lembrei-me, que as pessoas idosas em Setúbal eram chamadas de "mais antigos", porque não é velho de deitar fora, nem idoso de limitado, mas antigo de nobre, que pode ser valorizado - vi então nas mármores das bancadas  do peixe, pescadinhas de rabo-na-boca, empilhadas em cima umas das outras, mais longe haviam salmonetes, noutras pampos, os peixe-espada tinham os olhos tão esbugalhados que mais pareciam lobos-maus do mar, os chocos ainda luziam, abroteas, corvinas e pargos, luxuria marinha dos mais variados sabores, comprei pata-roxa para fazer de caldeirada. 

À medida que ando por ali, vejo que as pedras que forram aquele chão estão lisas e brilhantes, parecem um tapete já muito usado, acusando os milhões de vezes em que foram pisadas. Por todo o lado a vida vibra, as centenas de flores que apelam ao olhar, é uma primavera em cada ramo. Ramos de hortelã perfumam o ar, junto com alecrim, poejo, e outras das quais não me lembro do nome. Pão fresco de várias regiões, queijos frescos e secos, de ovelha, de vaca, de cabra, curado, meia cura, amanteigado. Mel de rosmaninho para acompanhar.

Ao fundo vejo o belíssimo painel de azulejos azuis e branco, onde os marítimos se encostavam para fumar e falar sobre a faina, as vozes do mar, as vozes no ar, não tanto burburinho como antes da pandemia, apenas um apontamento daquilo que já foi. Trás-me à memória as minhas vozes, aquele som transporta-me para lá do tempo. A minha mente vagueia acima, buscando reconhecer alguma, mas são apenas fragmentos. E foi ali que aprendi a escolher o peixe, os legumes e as frutas. A andar depressa por entre a multidão, a saber decidir qual o melhor preço, comparando a melhor qualidade. 

E os anos passaram e sinto que começo a ser uma pessoa antiga, carregada de memórias e saudades que não posso matar, não que isso me deixe mais triste ou mais alegre, mas antes que me dê vontade de conta-las a alguém.