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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Paz

01
Jan23

paz.webp 

Nós não podemos ser da Terra!
Ninguém destrói a sua casa com o à-vontade
da Humanidade a dar cabo do planeta!
(...)
Estamos cá por empréstimo. De nascimento e de morada.
Talvez, havendo rumado ao lado oposto, o natural,
a guerra fosse dita estúpida,
fútil o sacrifício da conquista,
porque de razão contrária à nossa meta.
Talvez, diante da paisagem liberta de ameaças,
de cavalos mortos, de pontas de lança,
de lutos carregados, de estandartes,
parássemos, tranquilos, de sorriso aberto
e ouvido alerta para o coro de vozes.
Talvez venerássemos, juntos, a brisa nas folhas,
o canto das baleias, das aves e das fontes,
sentíssemos gratidão pelo cheiro são do mar,
pela foice, pela água, pela vinha, pelas flores,
pelas montanhas em cadeia, pelas aldeias,
pelo pão, pelos céus, pelo luar da noite,
soubéssemos ligar-nos à luz que nos rodeia e espera,
elevássemos a vida às palavras boas, e,
de uma vez por todas, aprendessemos
a divina melodia dos abraços.
 
Margarida Faro
 
Retirado daqui.

Paz

Árvore de Natal

07
Dez22

paz.jpg 

Ilustração Jane Waterous

 

Onde encontro a paz? ...
Pergunto-me a todo instante.
Procurei-a há tempos idos
Num lugarejo distante...
Procurei-a num largo anfiteatro
E ainda não achei...
Procurei-a, desta vez, num circo
E também não encontrei...
Então pensei: Está no lar!...
Mas também lá não estava.
E pus-me novamente a buscá-la
Nos canteiros floridos, no pôr-do-sol,
Em todas as maravilhas do Universo
E nada consegui encontrar...
Um dia, embaraçada com tanta busca,
Perdi-me dentro de mim
E... Qual não foi a minha surpresa!
Lá estava ela...
A sorrir.

 

Poema Amélia Rodrigues

Morreu a Rainha

Isabel II

08
Set22

morreu a rainha.jpg Morreu a Rainha. Morreu a Mulher. 

Sou uma desconhecida na vida desta mulher, no entanto sinto que me é próxima, sei razoavelmente a sua história de vida, conheço as cores vivas com as quais se vestia em cerimónias importantes, conheço o seu sorriso, lembro-me de vê-la desde sempre. Foi uma uma mulher que viveu a sua vida em missão aos outros, com um importante sentido de Estado, com uma jovialidade surpreendente,  adaptou-se ao mundo e à evolução dos tempos, mantendo um sentido de humor e uma resiliência surpreendentes. Manifestou estar sempre disposta a aprender. Foi a Mulher - muitas vezes só - entre homens. A ironia da História, da mais frágil a mais forte. Vou ter saudades dela. 

1926-2022

 

"A vida não está por ordem alfabética"

01
Jun22

cores.jpg Ilustração Cédric Abt

 

A vida não está por ordem alfabética como há quem julgue. Surge... ora aqui, ora ali, como muito bem entende, são miga¬lhas, o problema depois é juntá-las, é esse montinho de areia, e este grão que grão sustém? Por vezes, aquele que está mesmo no cimo e parece sustentado por todo o montinho, é precisamente esse que mantém unidos todos os outros, porque esse montinho não obedece às leis da física, retira o grão que aparentemente não sustentava nada e esboroa-se tudo, a areia desliza, espalma-se e resta-te apenas traçar uns rabiscos com o dedo, contradanças, caminhos que não levam a lado nenhum, e continuas à nora, insistes no vaivém, que é feito daquele abençoado grão que mantinha tudo ligado... até que um dia o dedo resolve parar, farto de tanta garatuja, deixaste na areia um traçado estranho, um desenho sem jeito nem lógica, e começas a desconfiar que o sentido de tudo aquilo eram as garatujas.
 
António Tabucchi, in Tristano Morre