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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

5000

22
Dez20

apertar a mão.jpg

Ilustração Olga Demidova

 

Era uma vez uma estrela e um estrelo que viviam no profundo azul do espaço, utilizavam a sua luz para emitirem as suas emoções e comunicarem um com o outro, assim mesmo estando longe pareciam unidos por aquilo que sentiam. Não utilizavam sorrisos, nem sabiam o que eram abraços, os seus sentimentos eram transmitidos através da canalização de uma energia mental que poderia ser utilizada sem limites. Uma vez de cinco mil em cinco mil anos sentavam-se na Lua, quando ela estava em quarto minguante e aí tocavam-se levemente para poderem adquirir um outro brilho, nunca podiam estar mais de dez segundos juntos, porque podiam desaparecer numa explosão de cores, apesar de saberem que isso poderia ser um fim majestoso e unificá-los, preferiam separar-se e iluminar cada um o seu espaço. Então, num repentino clarão de luz os dois separaram-se deixando cada um rastro de luz violeta que se esvaiu em diversas direcções dando origem a mais estrelas e estrelos minúsculos que tentavam encontrar a melhor forma de iniciar o seu caminho, seria longa esta viagem, alguns teriam sucesso quando encontrassem o seu brilho, saberiam o que fazer com ele e o espalhariam a outros, numa dinâmica perpetuada no rendilhado nocturno.

 

 

 

Inverno branco

09
Dez20

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Fotografia Daisy Gilardini

 

Era uma vez uma foca branca, tão branca como a alva neve, fofa como os flocos que se amontoaram no velho glaciar meio desfeito, nasceu duma foca cinzenta, que não sabia quem bem quem era o pai da sua cria, eram uma família disfuncional, a mãe saía durante longos períodos para conseguir trazer-lhe algum peixe, e o suposto pai andava por ali a fazer olho grande às outras fêmeas. De vez em quando lá conseguia convencer uma delas. O grau de parentesco entrelaçava-se em cada olhar, ali todos eram meio-irmãos. 

Um dia a mãe deixou de lhe alimentar, apaixonou-se por outro macho que andava por ali a rondar a eira. Era um macho coxo e gordo, de um cinzento caca assustador, com algumas cicatrizes no focinho, mas como o amor é cego, e ele possuía a melhor rocha dos cinquenta metros quadrados mais próximos, os dois juntaram as patas e foram viver juntinhos, ele fez-lhe uma cama com algas e saltou-lhe para cima, foram dois minutos de puro martírio. 

E a foca branca? A foca branca é agora estrela de um reality show, onde mais focas brancas e fofinhas vivem vinte e quatro horas sobre vinte e quatro horas todas juntas, na esperança de fazerem presenças na disco Mar Bravo do Sul.

 

 

A meio

23
Nov20

perfil.jpg

Ilustração  Lucija Mrzljak

 

Olhei a fotografia gasta e desbotada pelo tempo, tinha algumas nódoas no papel amarelado. Virei-a para ver se tinha alguma dedicatória. Uma letra cuidada e elegante bailava ainda no papel envelhecido. Querido, começava a linha escrita a azul fim de tarde, pelo meio algumas palavras que só eles sabiam o sentido, no fim, desta que te ama, a assinatura estava no pedaço já rasgado. 

 

Caminhos

Trás-os-Montes

26
Out20

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Fotografia de Pedro Rego

 

Precisamos de mais caminhos assim. De muitos caminhos como este. Eu gostava de ter um caminho destes só para mim. Onde eu pudesse andar sem encontrar ninguém, ouvir apenas as vozes dos pássaros, o murmulhar da água escondida entre as rochas, e o silêncio de entre os ramos.

Imagino-me assim a caminhar em direcção a um outro tempo, a cada passo dado, uma maior proximidade em alcançar o passado e de me envolver numa outra época, vejo-me então vestida com uma capa de veludo macio e preto, que arrasta levemente pelo chão, alguma folhagem agarra-se ao debruado da bainha, dando um ar de renda louca. Tenho os cabelos ruivos até mais de metade das costas, numa trança pesada, com uma fita de ceda azul escura a terminar a ponta. A trança balança à medida em que avanço a passos largos para o tronco mais velho da floresta, adoro aquela árvore, às vezes durmo dentro dela, o seu tronco é tão grande que me deito ao comprido sem nenhum esforço. Na minha mão esquerda seguro a pedra verde que retirei do riacho que vai para sul. Fiz dela o meu amuleto mais querido.