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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Mansa hipocrisia

13.08.19, Alice Alfazema
    Não me peçam razões, que não as tenho, Ou darei quantas queiram: bem sabemos Que razões são palavras, todas nascem Da mansa hipocrisia que aprendemos... Não me peçam razões por que se entenda A força de maré que me enche o peito, Este estar mal no mundo e nesta lei: Não fiz a lei e o mundo não aceito. Não me peçam razões, ou que as desculpe, Deste modo de amar e destruir: Quando a noite é de mais é que amanhece A cor de primavera que há-de vir.       José (...)

Conversas da escola - A senhora

08.08.19, Alice Alfazema
A senhora veio à escola para colocar o processo do seu menino em dia e deixou o menino lá numa mesa entretido com o telemóvel dela. Veio até mim e disse-me, com uma voz nasalada e calma, que o menino quando está sozinho ninguém dá por ele e que às vezes até o tem de procurar pela casa. O menino continuava a brincar com o telemóvel, estava entretido, sossegado. Um encanto. Depois a senhora desliza suavemente, os seus passos são pequenos, e bandoleando-se dirige-se na (...)

💋

04.08.19, Alice Alfazema
  Ilustração Erin Robinson   Preciso ser um outro  para ser eu mesmo  Sou grão de rocha  Sou o vento que a desgasta  Sou pólen sem insecto  Sou areia sustentando  o sexo das árvores  Existo onde me desconheço  aguardando pelo meu passado  ansiando a esperança do futuro  No mundo que combato morro  no mundo por que luto nasço    Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"       

Trasparência

27.07.19, Alice Alfazema
  Ilustração Jeffrey T. Larson     Senhor libertai-nos do jogo perigoso da transparência No fundo do mar da nossa alma não há corais nem búzios Mas sufocado sonho E não sabemos bem que coisa são os sonhos Condutores silenciosos canto surdo Que um dia subitamente emergem No grande pátio liso dos desastres   Sophia de Mello Breyner Andresen  

Fogos abertura da época - 2019

21.07.19, Alice Alfazema
Tal como a abertura das férias da malta que trabalha está também aberta agora a época festiva dos fogos em Portugal, tempo quente, vento favorável, é só começar. É um festim, é ver o fogo devorar a floresta, ou o que resta dela, os animais que aí habitam a morrerem, as casas e os bens das pessoas que vão ficar anos sem nada, são as reportagens, são as capas dos jornais, são a contagem de gente ferida, é fotografias de bombeiros nas redes sociais. É o desnorte da (...)

O beijo da quilha

18.07.19, Alice Alfazema
      O beijo da quilha na boca da água me vai trocando entre o céu e mar, o azul de outro azul, enquanto na funda transparência  sinto a vertigem de minha própria origem e nem sequer já sei que olhos são os meus e em que água se naufraga minha alma Se chorasse, agora, o mar inteiro me entraria pelos olhos     Mia Couto