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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Receitas da minha mãe

22.02.17, Alice Alfazema
Quando eu era pequena e ia para a escola ou brincar para a rua a minha mãe dizia-me: se te oferecerem rebuçados, chocolates ou outras coisas para comeres, e tu não conheceres a pessoa que tas oferece, aceitas, aceitas sempre. Depois quando ninguém estiver a ver deitas fora, nunca comas. Percebeste?    Assim meus amigos, para aqueles que estão em posição de ter de ouvir de tudo e mais alguma coisa, oiçam, oiçam sempre, mesmo que as conversas não vos digam nada, mesmo que (...)

Pedaços de papel

29.01.16, Alice Alfazema
Ilustração  Ken Gailer   Se conseguisses juntar pedaços de papel, que te interessam e que acumulas-te ao longo da tua vida, para depois fazeres com eles um quadro, terias um quadro alegre ou um quadro trágico?   A vida é uma comédia para aqueles que pensam e uma tragédia para aqueles que sentem.   Horace Walpole     Alice Alfazema  

Sentido da crítica

05.02.14, Alice Alfazema
O direito a ser humilhado parece-me um direito tão digno como o direito da vítima a dizer não. É um direito como outro qualquer. Existem bons países onde esse direito é comum e aceite, na Coreia do Norte até têm cãezinhos que dão dentadinhas de humilhação. Qual o problema? Nalguns países muçulmanos as mulheres têm o direito a ver o mundo por um bocado de pano. E daí? Não se preocupam com a depilação e outras coisas que tais. Há sempre o direito que nunca se endireita, (...)

A minha escola

02.01.14, Alice Alfazema
Hoje a escola esteve vazia, de gritos, de palavrões, de risos, apenas o temporal pairava nos pátios.  O telefone está calado. A ventania levou as últimas folhas das árvores, deixou-as agarradas ao chão, coladas e irremediavelmente inertes. Dos telhados emergiram os últimos aviões de papel, ficaram pregados ao chão. Os jacintos já nasceram, espera-os a decapitação, mal a molhada entre na segunda-feira. As minhocas refugiaram-se debaixo das folhas molhadas. Nasceram alguns (...)

Raiz

25.08.13, Alice Alfazema
Ilustração Svenja Jödicke Examino esta saudade, seixo na palma da mão, núcleo de sangue, raiz que se recusa à morte.  Examino este seixo: venoso, a linha dos erros sinuosa, os pontos cinzentos dos poços de ar; sinais de uma trajectória a que um signo cortou a respiração.  Examino esta veia: sinto-a transmitir ainda uma pulsa-ção, um ritmo de folha no (...)

A energia

01.06.13, Alice Alfazema
Arte digital Christian Schloe Apenas a energia substitui a energia.  Para isso fomos feitos: Para lembrar e ser lembrados Para chorar e fazer chorar Para enterrar os nossos mortos — Por isso temos braços longos para os adeuses Mãos para colher o que foi dado Dedos para cavar a terra. Assim será nossa vida: Uma tarde sempre a esquecer Uma estrela a se apagar na treva Um caminho entre dois túmulos — (...)