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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

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Dia da Mulher

08.03.21, Alice Alfazema

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Ilustração Vladimira Fokanov

 

Eu não me importo que haja um dia do Homem e um dia da Mulher, que são diferentes, que sejam então. Nunca quis ser homem, no entanto muitas das vezes senti inveja, enquanto me contorcia com dores e o meu sangue escorria, vaginal e intenso, enquanto o meu corpo se dilatava em espaçadas contracções dolorosas para dar saída a dois seres que vinham envolvidos em fluidos ensanguentados. Inveja, nas vezes em que não compreendia porque tinha de ter deveres e direitos diferentes do meu irmão e em como as tarefas eram divididas entre a mãe e o pai, a avó e o avô. Pensar que estamos já distantes disto tudo é mera distracção, sendo que as mulheres se posicionam, ainda hoje, na lista dos trabalhadores mais mal pagos, e são na maior parte dos casos o cuidador informal. Acumulam tarefas infindas, e nessa busca constante da perfeição são elas próprias vigilantes incansáveis das suas próprias acções, jogando frequentemente em várias frentes, esquecendo-se de fazer equipa. O que eu invejo os homens...

 

A mulher não é só casa
mulher-loiça, mulher-cama
ela é também mulher-asa,
mulher-força, mulher-chama

  E é preciso dizer
dessa antiga condição
a mulher soube trazer
a cabeça e o coração

 Trouxe a fábrica ao seu lar
e ordenado à cozinha
e impôs a trabalhar
a razão que sempre tinha

  Trabalho não só de parto
mas também de construção
para um filho crescer farto
para um filho crescer são

  A posse vai-se acabar
no tempo da liberdade
o que importa é saber estar
juntos em pé de igualdade

  Desde que as coisas se tornem
naquilo que a gente quer
é igual dizer meu homem
ou dizer minha mulher

 

Poema de José Carlos Ary dos Santos

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