Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

5 Km

da saga: uma caminhada por dia

24.02.21, Alice Alfazema

caminho.jpg

 

Qualquer caminho leva a toda a parte.

Qualquer ponto é o centro do infinito.

E por isso, qualquer que seja a arte

De ir ou ficar, do nosso corpo ou espírito,

Tudo é estático e morto. Só a ilusão

Tem passado e futuro, e nela erramos.

Não há estrada senão na sensação

É só através de nós que caminhamos.

 

Tenhamos pra nós mesmos a verdade

De aceitar a ilusão como real

Sem dar crédito à sua realidade.

E, eternos viajantes, sem ideal

Salvo nunca parar, dentro de nós,

Consigamos a viagem sempre nada

Outros eternamente, e sempre sós;

Nossa própria viagem é viajante e estrada.

 

Que importa que a verdade da nossa alma

Seja ainda mentira, e nada seja

A sensação, e essa certeza calma

De nada haver, em nós ou fora, seja

Inutilmente a nossa consciência?

Faça-se a absurda viagem sem razão.

Porque a única verdade é a consciência

E a consciência é ainda uma ilusão.

 

E se há nisto um segredo e uma verdade

Os deuses ou destinos que a demonstrem

Do outro lado da realidade,

Ou nunca a mostrem, se nada há que mostrem.

O caminho é de âmbito maior

Que a aparência visível do que está fora,

Excede de todos nós o exterior

Não para como as coisas, nem tem hora.

 

Ciência? Consciência? Pó que a estrada deixa

E é a própria estrada, sem a estrada ser.

É absurda a oração, absurda a queixa.

Resignar(-se) é tão falso como ter.

Coexistir? Com quem, se estamos sós?

Quem sabe? Sabe [...] que são?

Quantos cabemos dentro em nós?

Ir é ser. Não parar é ter razão.

 

Poema de Fernando Pessoa

3 comentários

Comentar post