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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Brilho de Natal

21.12.13, Alice Alfazema

 

 

 

Ilustração Minna L. Immonen

 

A menina abraçou o gato e olhou a lua, os dois ficaram dentro daquela bolha cristalina que os unia, a amizade. Percorreram em silêncio o brilho luminoso que vinha da janela. Lá fora estava frio, e ela sabia que era uma menina com sorte, pois haviam muitos meninos que nesse momento estariam ao frio, ou a trabalhar, alguns com fome, outros sofrendo violência feitas pelos seus. Aquele pensamento arrefeceu-lhe o coração e apertou mais o gato, ele ronronou e lambeu-lhe a bochecha. O brilho da lua era intenso. Lá fora o frio também percorria as árvores e os bichos abandonados. 

 

Não queria mais ver televisão. Estavam os dois, ela e o gato, ouvindo músicas de Natal. Nas notícias ouvira falar das guerras, da crise, do desemprego, mas também ouvira falar dos multimilionários, não compreendia nada daquilo. Se havia tanto para uns, qual a razão de outros terem tão pouco? A lua será de alguém? Por enquanto o brilha da lua era seu e do gato. Fez-lhe uma festa e ele correspondeu-lhe. Lá na sala estava a árvore de Natal com as luzes acesas, mas nenhuma tinha o brilho da lua. Será que foi Deus que acendeu o brilho da lua? Não compreendia bem quem era Deus, afinal quase todas as guerras que ela conhecia, de ouvir na televisão, eram em seu nome, depois as pessoas diziam que ele era bondoso, se falavam de bondade qual seria o sentido de fazer sofrer, lembrando-se das imagens que vira ao almoço na tv. Deixou estes pensamentos e voltou a olhar a lua e a abraçar o gato. Ficaram os dois ali por um tempo indefinido, porque a amizade não tem tempo, a lua brilhou para eles e ali defronte da janela o mundo parecia melhor.

 

 

 

Alice Alfazema