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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Estranha árvore de filhos

09.06.13, Alice Alfazema

Fotografia de Helen Sear


Talvez este poema explique a ligação às árvores, à terra, ao infinito.


Corpo já lavrado

equidistante da semente

é trigo

é joio

milho híbrido

massambala

resiste ao tempo

dobrado

exausto

sob o sol

que lhe espiga

a cabeleira.

 

 

 

O ventre semeado

desagua cada ano

os frutos tenros

das mãos

(é feitiço)

nasce

a manteiga

a casa

o penteado

o gesto

acorda a alma

a voz

olha p'ra dentro do silêncio milenar.

 

 

 

(Mulher à noite)

Um soluço quieto

desce

a lentíssima garganta

(rói-lhe as entranhas

um novo pedaço de vida)

os cordões do tempo

atravessam-lhe as pernas

e fazem a ligação terra.

Estranha árvore de filhos

uns mortos e tantos por morrer

que de corpo ao alto

navega de tristeza

as horas.

 

 

O risco na pele

Acende a noite

enquanto a lua

[por ironia]

ilumina o esgoto

anuncia o canto dos gatos

De quantos partos se vive

para quantos partos se morre.

Um grito espeta-se faca

na garganta da noite

recortada sobre o tempo

pintada de cicatrizes

olhos secos de lágrimas

Dominga, organiza a cerveja

de sobreviver os dias.

 

 

Ana Paula Tavares



Alice Alfazema


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