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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Meninas e meninos

31.05.13, Alice Alfazema

 

Pintura de Alyona Krutogolova


 

Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.

A mãe disse que carregar água na peneira

Era o mesmo que roubar o vento e sair

correndo com eles para mostrar aos irmãos.


A mãe disse que era o mesmo que
catar espinhos na água
O mesmo que criar peixes no bolso.


O menino era ligado em despropósitos.


Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos.


A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio
do que do cheio.
Falava que os vazios são maiores
e até infinitos.


Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito
porque gostava de carregar água na peneira

Com o tempo descobriu que escrever seria

o mesmo que carregar água com a peneira


No escrever o menino viu
que era capaz de ser
noviça, monge ou mendigo
ao mesmo tempo.


O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.

 

Foi capaz de interromper o voo de um pássaro o

botando ponto no final da frase.

 

Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.


O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor!
A mãe reparava o menino com ternura.


A mãe falou:
Meu filho você vai ser poeta.


Você vai carregar água na peneira a vida toda.

 

Você vai encher os
vazios com as suas peraltagens

 

e algumas pessoas
vão te amar por seus despropósitos. 

 



Manoel de Barros


 

Alice alfazema