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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Os Gatos de Bocage

15.09.12, Alice Alfazema

Bocage nasceu em Setúbal a 15 de Setembro de 1765, reza a história que tinha um temperamento irreverente com um sentido de humor difícil de discernir, sendo,  também um defensor da igualdade, fraternidade e liberdade. Este texto que se segue está perfeitamente enquadrado na situação que se vive actualmente, querendo isso dizer que, apesar de já terem passados tantos anos, as desigualdades sociais persistem, e persistem pelas mesmas fúteis razões.

 

 

 

 

Dois bichanos se encontraram

Sobre uma trapeira um dia.

(Creio que não foi no tempo 

Da amorosa gritaria).

 

De um deles todo o aconchego

Era dormir no borralho,

O outro em leito de Senhora

Tinha mimoso agasalho.

 

Ao primeiro o dono humilde

Espinhas apenas dava;

Com esquisitos manjares

O segundo se engordava.

 

Miou e lambeu-o aquele

Pelo ver da sua casta:

Eis que o brutinho orgulhoso

De si com desdém o afasta.

 

Aguda unhada vibrando,

Lhe diz:"Gato vil e pobre,

Tens semelhante ousadia

Comigo opulento e nobre!

 

Cuidas que sou como tu?

Asneirão, quanto te enganas!

Entendes que me sustento

De espinhas ou barbatanas?

 

Logro tudo o que desejo,

Dão-me de comer na mão,

Tu lazeiras e dormimos

Eu em cama tu no chão.

 

Poderás dizer-me a isto

Que nunca te conheci,

Mas para ver não minto

Basta-me olhar para ti."

 

"Ui!" (Responde-lhe o gatorro,

Mostrando um ar de estranheza)

"És mais do que eu! Que distinção

Pôs em nós a Natureza?

 

Tens mais valor? Eis aqui

A ocasião de o provar."

"Nada,(acode o cavalheiro)

Eu não costumo brigar."

 

"Então" (torna-lhe enfadado 

O nosso vilão ruim)

"Se tu não és mais valente,

Em que és superior a mim?"

 

"Tu não mias?" - "Mio." "E sentes

Gosto de pilhar algum rato?"

"Sim." - " E o comes?" - " Oh se o como!"

"Logo não passas de um gato.

 

Abate, pois, esse orgulho,

Intratável criatura:

Não tens mais nobreza que eu, 

O que tens é mais ventura."

 

 

in, Bocage, Fábulas de Bocage




Alice Alfazema

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