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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Irmã do meio

10
Jul21

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Ilustração Nicola Simbari

Hoje se o meu irmão fosse vivo faria anos. É estranho, ou talvez não, este sentimento que tenho todos os anos por este dia, nunca me esqueço, nunca falo sobre isso, esta é talvez a primeira vez que escrevo sobre isto. Este meu irmão morreu com três meses de vida, um recém nascido que eu não conheci, que apenas recordo pela imagem que tenho de uma única fotografia, assim eu que sempre me portei como sendo a irmã mais velha, constato agora que fui sempre a irmã  do meio. É sem dúvida, um sentimento que não poderei explicar de forma simples ou esclarecedora, mas fico a pensar em como seria se tivéssemos crescido juntos. Não é um luto vivo e doloroso. É uma saudade cheia de sentimentos que ficaram por viver. 

 

 

 

Pedras da calçada

09
Jul21

pedras da calçada.jpg

Muitas das nossas acções, juntando uma a uma, alinhadas ou desencontradas dariam para fazermos um longo passeio de pedra calcetada, dando espaço, fazendo aquela curva inesperada de um dia que se foi, escolhendo as pequenas, as defeituosas, dando um jeito nas ponteagudas. 

Quem sabe dando espaço a uma oportunidade de crescimento, ignorando balelas, deixando ir. De cócoras, ao sol, de joelho forçado ao chão, calcando tudo, até alisar o caminho. E quando menos preveres acontece. Acontece sentires que tinhas a tua certeza, que é plenamente tua, acreditar, sintoma de início. Pleno de agora, liberdade de escolha independente. Longe de pensamentos podres. Agora, sem limite à imaginação. 

Descobri lá no fundo do quintal, um vaso tão estreitinho, semeado pelo vento, entre duas pedras calcadas crescia sem grande pressa a flor rosa estrelada, envergonhada estendia a pernada fina percorrendo o limite entre o muro e o sítio onde os pés pisavam. Que importa a margem, que seja enquanto dure, a vida é plena mesmo assim. 

Estrela do mar

07
Jul21
Numa noite em que o céu tinha um brilho mais forte
e em que o sono parecia disposto a não vir
fui estender-me na praia sozinho ao relento
e ali longe do tempo acabei por dormir
 
Acordei com o toque suave de um beijo
e uma cara sardenta encheu-me o olhar
ainda meio a sonhar perguntei-lhe quem era
ela riu-se e disse baixinho: estrela do mar
Sou a estrela do mar
só a ele obedeço, só ele me conhece
só ele sabe quem sou no princípio e no fim
só a ele sou fiel e é ele quem me protege
quando alguém quer à força
ser dono de mim
Não sei se era maior o desejo ou o espanto
mas sei que por instantes deixei de pensar
uma chama invisível incendiou-me o peito
qualquer coisa impossível fez-me acreditar
Em silêncio trocámos segredos e abraços
inscrevemos no espaço um novo alfabeto
já passaram mil anos sobre o nosso encontro
mas mil anos são pouco ou nada para a estrela do mar
 
 
 
Poema de Jorge Palma
Para ouvir:
 

 

Opinião-ão-ão

04
Jul21

É interessante perceber até que ponto algo dito por alguém é considerado uma opinião. Provavelmente o meu cão quando rosna está a emitir a sua opinião, assim como quando gane.  Aquilo de que se diz do que é uma opinião refere-se ao acto de pensar e emitir pela boca  ou da boca para fora o seu pensamento sobre o que foi tido em apreciação. 

Provavelmente há palavras que são mais rápidas que o pensamento, talvez por serem sempre as mesmas em uso, ou então o pensamento é oco e escoa o eco atribuído àquilo que por lá passou. Processar as palavras com rapidez e assertividade exige destreza de pensamento e demonstra nitidamente a nossa capacidade de raciocínio e inteligência. 

A capacidade mesquinha de ofender sobrepõe-se ao que é considerado uma opinião, a isso chama-se insulto. E se as pessoas emitissem a sua opinião à janela? Dariam as mesmas opiniões que dão atrás dos teclados a um qualquer desconhecido? Ou mesmo defronte de um espelho, conseguiriam ouvir as suas próprias palavras? Teriam coragem para ouvir aquilo vindo de si?

E há pessoas que gostam de opinar desconhecendo em absoluto a linha ténue que existe entre isso e insultar, e as que se dizem de francas, ou as que se acham corajosas emitindo a sua raiva e frustração nos outros. Sendo que a felicidade não vêm apenas de coisas boas, há pessoas que são felizes a massacrar, elevando-se na sua imensa opinião. 

A minha professora primária dizia-me: podes dar a tua opinião sempre que saibas o onde, o como, o quando e o porquê.