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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Parece que o maior problema de Portugal são os portugueses

30.05.21, Alice Alfazema

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Ilustração  Peter Gut

Há muito, muito tempo, na era do covid, num país chamado Portugal, onde viviam cerca de dez milhões de habitantes, as pessoas foram obrigadas por lei a usar máscara enquanto andavam nas ruas das cidades e das vilas, era assim que estava estipulada a melhor maneira de conter a disseminação do vírus, quem não cumprisse poderia incorrer numa multa valente, mas depois vieram os ingleses  e os empregados de mesa viveram felizes para sempre. 

Ler o mundo

29.05.21, Alice Alfazema

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Falamos em ler e pensamos apenas nos livros, nos textos escritos. O senso comum diz que lemos apenas palavras. Mas a ideia de leitura aplica-se a um vasto universo. Nós lemos emoções nos rostos, lemos os sinais climáticos nas nuvens, lemos o chão, lemos o Mundo, lemos a Vida. Tudo pode ser página. Depende apenas da intenção de descoberta do nosso olhar. Queixamo-nos de que as pessoas não lêem livros. Mas o deficit de leitura é muito mais geral. Não sabemos ler o mundo, não lemos os outros.
 
Vale a pena ler livros ou ler a Vida quando o acto de ler nos converte num sujeito de uma narrativa, isto é, quando nos tornamos personagens. Mais do que saber ler, será que sabemos, ainda hoje, contar histórias? Ou sabemos simplesmente escutar histórias onde nos parece reinar apenas silêncio?
 
Mia Couto, in  E se Obama fosse africano ?
 

Quietos fazemos as grandes viagens

27.05.21, Alice Alfazema

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Ilustração Jungsuk Lee

 

Quietos fazemos as grandes viagens
só a alma convive com as paragens
estranhas

lembro-me de uma janela
na Travessa da Infância
onde seguindo o rumor dos autocarros
olhei pela primeira vez 
o mundo

não sei se poderás adivinhar
a secreta glória que senti
por esses dias

só mais tarde descobri que
o último apeadeiro de todos
os autocarros
era ainda antes 
do mundo

mas isso foi depois
muito depois
repito

 

Poema de José Tolentino Mendonça

"cega, secreta e doce como estrelas"

Floresta

26.05.21, Alice Alfazema

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Entre o terror e a noite caminhei
Não em redor das coisas mas subindo
Através do calor das suas veias
Não em redor das coisas mas morrendo
Transfigurada em tudo quanto amei.
 
Entre o luar e a sombra caminhei:
Era ali a minha alma, cada flor
- cega, secreta e doce como estrelas -
Quando a tocava nela me tornei.
 
E as árvores abriram os seus ramos
Os seus ramos enormes e convexos
E no estranho brilhar dos seus reflexos
Oscilavam sinais, quebrados ecos
Que no silêncio fantástico beijei.
 
 
Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen, Floresta
 

Anagrama

25.05.21, Alice Alfazema

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Ilustração Karolis Strautniekas

O que tem de verdade é o primeiro olhar. O que tem de verdade é o que nós vemos, mas não é isso que me interessa escrever. O que me interessa escrever é o que está dentro dessa imagem, o que está do outro lado dessa imagem. E o que está dentro e do outro lado dessa imagem, isso é que é a verdade. Porque o que nós estamos a ver é uma espécie de mentira, é uma ficção. Se olharmos para uma árvore, aquela árvore está ali, mas eu não sei porque é que está ali, não é? 

 

Jaime Rocha ou Rui Ferreira de Sousa

 

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