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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Tomem lá giestas

da saga: uma caminhada por dia

04
Fev21

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Hoje o por do sol estava especialmente laranja e depois violeta, um adeus ao dia, até amanhã gritou o sol lá do alto da montanha. Ficará esbatido na minha memória este dia, como se fosse um igual a tantos outros. No entanto, cada dia é único, como uma página no meio de um livro, que depois de arrancada sente-se-lhe a falta.  

 

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E há aqueles dias que diferenciam-se dos outros, porque nos dizem algo, porque são metas, esperados. Caminhei novamente alinhada à estrada. Enquanto ando o sangue fervilha-me nos pés e nas mãos. É uma sensação tão boa, sentirmos que há vida em nós, numa simplificação vermelha aglutinada.  

 

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A explosão de azuis acontece acima  da minha cabeça, enquanto um avião traça o céu, para onde irá? Estará cheio de gente? Esqueço-me disso rapidamente depois de ser banhada pelo perfume das giestas. Viajo então pelo caminho do sonho, talvez num país exótico e cheio de calor, com sabor a mar, muito mar, dunas macias de areia fina, cheiro a terra aquecida, um copo de sumo fresco, uma música lenta. 

 

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Esta flor
Não é da floresta.

Esta flor é da festa
Esta é a flor da giesta.
É a festa da flor
E a flor está na festa.
(E esta folha?
Que folha é esta)
Esta folha não é da giesta.
Não é folha de flor.
Mas está na festa.
Na festa da flor
Na flor da giesta.
 
 
Poema de Cecília Meireles

Uma caminhada por dia, nem sabe o bem que lhe fazia

03
Fev21

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Saí de casa ao escurecer, para esticar as pernas e desanuviar a mente. Não levo música, às vezes nem ando depressa, paro quando me apetece. 

O céu estava convidativo à contemplação, os pássaros davam as últimas chalreadas do dia, um mocho ou uma coruja começou a piar ao de leve, as árvores ficaram com sombras fantasmagóricas. As casas pareciam mais sóbrias à medida que aumentavam as zonas escuras. O cinzento tomava conta de tudo, e em todos os tons. 

Vejo que as giestas continuam lindas, com cachos de flores delicadas, deixando um perfume inebriante no ar, o exotismo da caminhada é desvendado a cada passo, numa calçada portuguesa em direcção à noite. Ao fundo o Castelo iluminado, como se fosse um farol, fico a vê-lo, encantada com aquela luminosidade dourada. 

 

Fio a fio

02
Fev21

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Ilustração Alonsa Guevara

 

Fruta do paraíso
companheira dos deuses
as mãos
tiram-lhe a pele
                          dúctil
como, se, de mantos
                         se tratasse
surge a carne chegadinha
                         fio a fio
ao coração:
                  leve
                  morno
                  mastigável
o cheiro permanece
para que a encontrem
                   os meninos
                   pelo faro.

 

Poema de Paula Tavares

 

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