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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Há novidades!

Chegaram hoje as andorinhas.

28.02.21, Alice Alfazema

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Hoje pela manhã vi que as andorinhas já tinham chegado, com alegria esvoaçavam de volta do ninho, fico sempre encantada ao descobrir que estes pequenos viajantes de longo curso voltaram. Não somente a visão, mas também a mensagem de resiliência que é necessária para empreender tal viagem. Tenho procurado em tudo o que me rodeia encontrar a chave para ser mais resiliente de forma serena, sem questionar muito, relativizando as minhas fragilidades, tal como o faço com os outros. 

É-me mais fácil compreender os limites dos que me rodeiam, do que os meus, talvez porque exijo demais de mim, como se fosse possível estar constantemente a marcar o passo para indicar o caminho. 

E deixo-vos uma fotografia,  onde ao longe vemos a Serra da Arrábida, e as suas serras circundantes, o Vale dos Barris, com um tsunami de nuvens, mais uma vez a Natureza a surpreendermo-nos, no último dia de Fevereiro. Boa semana. 

 

Tapetes celestiais debruados a verde magia

da saga: uma caminhada por dia

26.02.21, Alice Alfazema

Sempre imaginei o musgo como um lugar mágico, onde habitam criaturas pequeninas, tão pequeninas que não conseguem ser vistas a olho nu. É um tapete aveludado que cresce com muita paciência. Frágil e de verdes luxuriosos, dão-nos a perspectiva ilusória de como somos gigantes. No fim, vendo bem a coisa somos um pedaço de musgo neste gigantesco universo. 

musgo.jpg

Morri pela Beleza - mas mal me tinha
Acomodado à Campa
Quando Alguém que morreu pela Verdade,
Da Casa do lado -

Perguntou baixinho "Por que morreste?"
"Pela Beleza", respondi -
"E eu - pela Verdade - Ambas são iguais -
E nós também, somos Irmãos", disse Ele -

E assim, como parentes próximos, uma Noite -
Falámos de uma Casa para outra -
Até que o Musgo nos chegou aos lábios -
E cobriu - os nossos nomes -

Emily Dickinson, in Poemas e Cartas, tradução de Nuno Júdice.

 

 

5 Km

da saga: uma caminhada por dia

24.02.21, Alice Alfazema

caminho.jpg

 

Qualquer caminho leva a toda a parte.

Qualquer ponto é o centro do infinito.

E por isso, qualquer que seja a arte

De ir ou ficar, do nosso corpo ou espírito,

Tudo é estático e morto. Só a ilusão

Tem passado e futuro, e nela erramos.

Não há estrada senão na sensação

É só através de nós que caminhamos.

 

Tenhamos pra nós mesmos a verdade

De aceitar a ilusão como real

Sem dar crédito à sua realidade.

E, eternos viajantes, sem ideal

Salvo nunca parar, dentro de nós,

Consigamos a viagem sempre nada

Outros eternamente, e sempre sós;

Nossa própria viagem é viajante e estrada.

 

Que importa que a verdade da nossa alma

Seja ainda mentira, e nada seja

A sensação, e essa certeza calma

De nada haver, em nós ou fora, seja

Inutilmente a nossa consciência?

Faça-se a absurda viagem sem razão.

Porque a única verdade é a consciência

E a consciência é ainda uma ilusão.

 

E se há nisto um segredo e uma verdade

Os deuses ou destinos que a demonstrem

Do outro lado da realidade,

Ou nunca a mostrem, se nada há que mostrem.

O caminho é de âmbito maior

Que a aparência visível do que está fora,

Excede de todos nós o exterior

Não para como as coisas, nem tem hora.

 

Ciência? Consciência? Pó que a estrada deixa

E é a própria estrada, sem a estrada ser.

É absurda a oração, absurda a queixa.

Resignar(-se) é tão falso como ter.

Coexistir? Com quem, se estamos sós?

Quem sabe? Sabe [...] que são?

Quantos cabemos dentro em nós?

Ir é ser. Não parar é ter razão.

 

Poema de Fernando Pessoa

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