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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Será este o sítio eleito para o ano de 2020?

A casa

03
Dez20

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Ilustração Adam Niklewicz

 

Era uma casa
Muito engraçada
Não tinha teto
Não tinha nada
Ninguém podia
Entrar nela não
Porque na casa
Não tinha chão
Ninguém podia
Dormir na rede
Porque a casa
Não tinha parede
Ninguém podia
Fazer pipi
Porque penico
Não tinha ali
Mas era feita
Com muito esmero
Na Rua dos Bobos
Número Zero.

 

Poema de Vinicius de Moraes

 

 

 

 

 

De quem são as palavras?

02
Dez20

 

"Nós somos tempo. Compreender aquilo que nós somos é compreender o tempo que nós somos, aquilo que o tempo exterior, o tempo da história, o tempo da sociedade é em nós. Não se faz essa aprendizagem sem que ela seja uma metamorfose permanente daquilo que nós somos."

 

dá-lhe asas.jpg

Ilustração Adam Niklewicz

 

"Somos hóspedes do instante, cada um de nós. Mas sempre com o sentimento de que cada esse instante não é diferente do que chamamos de eternidade, a eternidade como uma colecção de instantes. O tempo é feito desses instantes, de nada e de tudo ao mesmo tempo."

 

As palavras são de Eduardo lourenço.

 

 

Dezembro

2020

01
Dez20

debaixo.jpg

 

O primeiro dia é sempre de admiração, depois de dividirmos os meses em montinhos de trinta, ou mais ou menos trinta. Como se os dias ficassem mais leves de contar se estiverem agrupados em prateleiras certas e quase iguais. E os últimos trinta e um do ano chegaram. Parecem-me os restos de um café com leite que ficou no fundo de uma caneca,  e que alguém te obriga a beber tudo até ao fim, já frio, com migalhas ensopadas. Toma lá o resto, vá só falta isso, mais um golo, depois podes ir à tua vida. 

Lá fora os gnomos trabalham rápido, para que nenhuma brincadeira fique esquecida. Um deles é redondo e tem muitos picos, anda por aí desvairado, louco para alcançar o mais distraído. 

 

abaixo.jpg

 

Entremos, apressados, friorentos,
numa gruta, no bojo de um navio,
num presépio, num prédio, num presídio,
no prédio que amanhã for demolido…
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos, e depressa, em qualquer sítio,
porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.

 

Entremos, dois a dois: somos duzentos,
duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma nave…
Entremos, despojados, mas entremos.
Das mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e não Dezembro,
talvez universal a consoada.

 

Poema de David Mourão-Ferreira, in ‘Cancioneiro de Natal’

 

As ilustrações são de Briony May Smith

 

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