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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Chama rosa

05
Nov20

Chovia pausadamente, havia vento e estávamos no final da tarde. Já é Novembro e escurece rápido. As pessoas entravam e saíam rápidas do supermercado, andando em passos de corrida para chegarem aos carros sem molharem as compras. Estou ali dentro do meu carro a observar aquela azáfama. Chega um homem com um saco, abre o porta bagagem do carro e mete lá dentro as compras, o homem fica a olhar para trás, à espera, pouco depois chega uma mulher e um miúdo, o miúdo entra no carro, a mulher coloca outros sacos dentro do carro, o homem continua na rua, do lado contrário do volante, à espera da mulher, ela aproxima-se dele e coquete inclina a cabeça, num gesto de pura espontaneidade ele dá-lhe um beijo na boca, ela parece ficar feliz, julgo que vi um saltinho de contentamento. Nenhum dos dois parece ter dado pela máscara que tinham na cara. Sinto que de repente todo o escuro desapareceu e uma chama se agigantou por breves instantes iluminando-os. 

 

O tempo e a mentira dão origem à realidade social em que vivemos

04
Nov20

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Ilustração Claudia Giraudo

 

Quando somos crianças aquilo que nos pode revoltar mais é apanharmos alguém em mentiras. Depois à medida  que crescemos e vamos tendo mais contacto com o mundo, para além do nosso quotidiano, vamos nos dando conta que a mentira é banal em todos os quadrantes da nossa vida e da nossa sociedade. Vivemos agora num tempo em que tudo é muito rápido, não há tempo para grandes surpresas, nem para digerirmos com calma as mentiras da vida. Há quem se refira ao termo "há muitos anos" como se estivesse a falar de décadas, quando no final viemos a saber que são na realidade dois ou três anos.

Mas afinal o que é o tempo e a realidade de hoje em dia?  A realidade é aquilo que se passa, não o que nos contam, o tempo é a mesma medida de sempre, mas levada à realidade daquilo que é transmitido. Assim, hoje é mais fácil obter informação rápida, mas não posso dizer que foi "há muito tempo", quando na realidade se passaram um par de anos. Se assim fosse, uma criança de dez anos seria um velho? Continuamos a precisar de tempo para a compreensão e, não é por haver conexão rápida que isso acelera o processo, muito pelo contrário, há agora diversas interferências que é preciso saber discernir. Se antes tínhamos livros validados, onde podíamos obter o nosso conhecimento, agora temos uma série de fontes credíveis e não credíveis que nos dão a sensação de termos o conhecimento ao nosso alcance sem necessidade do outro. E baralhamos assim a realidade e o tempo. Dando origem a milhões de opiniões e comentários desfasados daquilo que é a verdadeira realidade social. 

Parece haver também um pouco caso sobre a mentira. Mentir é assim, como colocar mais um adereço, damos demasiada importância aos mentirosos, mentir tornou-se num estado normal de consciência, é assumido pela sociedade como fazendo parte da realidade, mente-se em relação à felicidade, em relação ao discurso, às emoções, mente-se por tudo e por nada, num dia a mentira é a notícia, no outro a notícia é mentira. E mentir tornou-se tão banal como deprimente, tal como na corrupção, é assumido e validado em sociedade. Ninguém tem vergonha ou medo de ser mentiroso. É talvez até prestigiante, desde que sirva para atingir os fins. 

Estamos assim deprimidos e desfasados da verdade e do tempo, sem rumo e sem perceber o que andamos por aqui a fazer. Poderia também falar dos suicídios, das doenças autoimunes, das depressões, e de tantos outros estados de espírito que por aí andam, compará-los com a mentira que se vive hoje em dia, com a realidade social isenta de lideres que nos tragam soluções para um futuro mais justo, enquadrar a utilidade das pessoas perante a sociedade, enfim descamar a estratificação do tempo, da mentira e da realidade criada à volta desta. 

 

O "sorriso audível das folhas."

03
Nov20

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Ilustração Laia Albareda

 

 

Sorriso audível das folhas,

Não és mais que a brisa ali.

Se eu te olho e tu me olhas,

Quem primeiro é que sorri?

O primeiro a sorrir ri.

 

Ri, e olha de repente,

Para fins de não olhar,

Para onde nas folhas sente

O som do vento passar.

Tudo é vento e disfarçar.

 

Mas o olhar, de estar olhando

Onde não olha, voltou;

E estamos os dois falando

O que se não conversou.

Isto acaba ou começou?

 

Poema de Fernando Pessoa