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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Qual o local de eleição deste ano?

26
Set20

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Ilustração Irene Fioretti

 

Este ano temos estado demasiado atentos aos outros e passamos muito tempo à janela. Tem sido um ano de profunda reflexão sobre os valores que queremos e dos que devemos abandonar. Não é para mim um ano desperdiçado, como tenho ouvido dizer por aí. É um patamar de mudança, se fosse um jogo, chamaríamos de - mudança de nível. Ou caímos, ou subimos, a diferença é que aqui não há como ficar no mesmo nível. Sabemos que esta janela temporal é comum e global, sabemos também que apesar de ser comum e global, ela é diferente em cada país, e em cada pedaço do globo, e não só por essa forma, ela também difere pelo bairro em que vivemos ou da cidade, pela forma como nos alimentamos, pela profissão que temos, pelo poder económico, pela idade e até o género. A imagem de que o vírus atinge todos da mesma forma não é verdadeira. Há quem tenha de se expor como um peão, outros como um bispo ou um rei. E nisto  passámos a Primavera à janela, tanto na real como na janela virtual que nos permite estarmos aqui a escrever e a lermos uns e outros. A janela é um ponto de partida para o conhecimento, um ponto de vigia, de acesso, e ainda de encontro paralelo neste mundo global de desigualdades crescentes e incrivelmente ignoradas, mesmo debaixo do nosso nariz, perdão - janela. Deste modo a nossa rua (que é onde estão as nossas janelas), é alargada em proporção da população existente globalmente, e é relegada em detrimento de outros valores que continuam a sobrepor-se à sua existência, valores esses que contribuem directamente e indirectamente para aquilo que estamos a viver. Numa doença não se verificam apenas os sinais e os sintomas, muitas das vezes é nas causas que está a solução. Ou então a velha máxima: Onde? Como? Quando? Porquê?

 

Os vazios

25
Set20

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Os vazios do homem não sentem ao nada
do vazio qualquer: do do casaco vazio,
do da saca vazia (que não ficam de pé
quando vazios, ou o homem com vazios);
os vazios do homem sentem a um cheio
de uma coisa que inchasse já inchada;
ou ao que deve sentir, quando cheia,
uma saca: todavia não, qualquer saca.
Os vazios do homem, esse vazio cheio,
não sentem ao que uma saca de tijolos,
uma saca de rebites; nem têm o pulso
que bate numa de sementes, de ovos.

 

chapéu.jpg

 


Os vazios do homem, ainda que sintam
a uma plenitude (gora mas presença)
contêm nadas, contêm apenas vazios:
o que a esponja, vazia quando plena;
incham do que a esponja, de ar vazio,
e dela copiam certamente a estrutura:
toda em grutas ou em gotas de vazio,
postas em cachos de bolha, de não-uva.
Esse cheio vazio sente ao que uma saca
mas cheia de esponjas cheias de vazio;
os vazios do homem ou o vazio inchado:
ou o vazio que inchou por estar vazio.

 

 

Poema de João Cabral Melo Neto

 

Ilustrações de Akitaka Ito

 

 

 

Cama

24
Set20

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Ilustração Virginia Mori

 

 

Eu gostava de ter uma cama de mar azul brilhante. Que fosse sempre feita e desfeita numa cadência ritmada de um maestoso. Onde eu pudesse descansar nas ondas e sentir o aveludado da água na minha pele. Nem sonhos de sereias, nem de medusas monstruosas e venenosas. Apenas sonhos de peixinhos e conchas com algas leves e coloridas. E ouvir a voz do mar, com o som que há dentro dos búzios. 

 

 

 

Família

23
Set20

o gato e o piriquito.jpg

Ilustração Olga Peganova

 

Como se define o que é família? Quem é parente? Quem está presente? Quem cuida? Quem é da mesma espécie? Ou são os laços visíveis e os invisíveis que nos unem e nos transformam em família? Mesmo que não sejamos do mesmo sangue ou até da mesma espécie. 

Parece haver um fio condutor que nos une e nos leva àquilo que pode ser família, mesmo que não estejam reunidas todas as condições que a sociedade  impõe para a designação do termo família. É preciso sentir, não apenas saber ou descobrir um mero laço de sangue ou vestígios de ADN.

Família não é assim uma coisa vaga ou expressa numa certidão de nascimento, ou feita através de  um óvulo fecundado por um espermatozóide.  Família pode ser, as milhentas ligações emocionais que temos ao longo do tempo, quer sejam aquelas que construímos propositadamente ou as que se nos oferecem como imposição e que depois parecem fazer parte de nós desde sempre.