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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

The Sound of Silence

16.06.20, Alice Alfazema

 

Nos últimos tempos a rapariga do segundo andar tem tocado no seu contrabaixo, o som propaga-se até à minha sala, e fico ali a ouvir, é um privilégio que me encanta e me transporta para outros lugares, o som baila de lá para cá, fascina-me o serpentear das notas, a cadência de cada pausa, e o meu corpo agradece, sinto-me em paz, uma paz que me apazigua, como se uma mão gigante pairasse e me desse colo, num embalo leve de aconchego. Vou e venho sem sair daqui. A música tem aquela magia que já tenho saudades de sentir, numa cadeira a olhar o palco. Mesmo que eu não saiba interpretar uma pauta, nem uma clave de Fá, acordo a perceber que tudo se entende. 

 

O que nos chama para dentro de nós mesmos
é uma vaga de luz, um pavio, uma sombra incerta.
Qualquer coisa que nos muda a escala do olhar
e nos torna piedosos, como quem já tem fé.
Nós que tivemos a vagarosa alegria repartida
pelo movimento, pela forma, pelo nome,
voltamos ao zero irradiante, ao ver
o que foi grande, o que foi pequeno, aliás
o que não tem tamanho, mas está agora
engrandecido dentro do novo olhar.

 

 

Fiama Hasse Pais Brandão, in As Fábulas

 

 

 

O Sol

15.06.20, Alice Alfazema

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Ilustração Elisa Chavarri

 

O Sol para uns é algo bonito, para outros não passa de algo comum a que nos habituamos a ver todos os dias, mesmo que esteja escondido, sabemos que está lá na mesma. Uns preferem ver o nascer do Sol, outros o pôr do Sol, eu prefiro o primeiro, gosto de expectativas, de começos, da manhã, da energia a crescer, de ver a Natureza numa azáfama para acolher um novo dia, os zumbidos das cigarras em pleno Verão sob um Sol abrasador. Encantam-me os pássaros que acordam cedo dando ordem de levantar para os mais dorminhocos. Há dias acordei às quatro e meia da manhã com um desses cantores matutinos. Acordem, acordem, dizia ele na sua voz melodiosa, que palavras bonitas podem dizer-se através do canto dos pássaros? Que entendemos nós, seres mais inteligentes do planeta, desta linguagem? E de outras? E até da nossa própria linguagem? Eu digo doce, mas há quem diga que não é, ou outros que dizem que é enjoativo, e se acrescento mais qualquer coisa há quem já não entenda que é doce e assimile outro estado de degustação.

 

E o Sol estava a ler, um livro muito complicado, porque a cada minuto tinha de parar para reflectir sobre a linguagem utilizada, uns diziam isto, outros aquilo, uns tantos aqueloutro, tudo misturado parecia que nada dizia com nada. Então decidiu escrever sem palavras, escreveu a Primavera, o Verão, o Outono, o Inverno, mas quase ninguém entendia que tudo era diferente, porque já tinha sido igual. E os anos passaram, uns morreram e outros nasceram, as paisagens ficaram diferentes, os pássaros cantaram, quase sempre o mesmo canto, e ninguém entendia a canção, porque para deslindar esta linguagem não se utilizam os sentidos. Observou-se e registou-se o som, e ele esteve sempre ali para quem o podia ouvir, anos e anos. Até desistirmos de entender e começarmos a sentir o que realmente andamos aqui a fazer.

 

 

 

 

Conto azul

Imaginário

14.06.20, Alice Alfazema

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Pintura de Josep Maria Tamburini

 

Conto azul é o nome da pintura. Há muitos anos atrás, conheci uma pintora, fui a casa dela com outras pessoas para vermos os seus quadros, dava-me com a pessoa que pintava, mas apenas em contexto profissional e há pouco tempo. Todos ficaram maravilhados com o seu trabalho e elogiaram-no, eu fiquei admirada com as suas pinturas, por aquilo que conhecia da pintora imaginava outro ser, aquilo que eu via ali pareciam-me mundos dentro de outros mundos, mas para mim eram mundos tristes e de grande sofrimento, apesar de haver cor, havia muitos espinhos, árvores despidas, caminhos vazios, cenas que passavam para outras cenas, incompletas, ou em busca. Eu gostei do trabalho, dos pormenores das cores, da perfeição, no entanto para além disso vi ali algo que passei a entender no dia-a-dia. 

 

(...)não existe tal coisa como um facto puro e simples. Todos os factos são desde a sua origem selecionados de um contexto universal pela actividade da nossa mente. São sempre factos interpretados, sejam eles olhados à parte do seu contexto, por uma abstração artificial, ou ponderados no seu enquadramento específico. Em qualquer dos casos, transportam os seus próprios horizontes interpretativos internos e externos. 

 

Alfred Schütz

O meu cão

Ginjas

11.06.20, Alice Alfazema

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O meu cão não é obediente, mas eu também não quero que ele seja obediente, gosto dos seus ataques de fúria quando está chateado, da forma como anda sem dar cavaco a ninguém, do modo meigo quando está interessado na comida que temos à mesa. Quando não gosta de uma pessoa não há nada a fazer, mas quando gosta ama até ao infinito. Sabe quando estamos tristes e vem-nos confortar, sabe quando vamos sair para trabalhar, quando estamos doentes, quando é hora de ir dormir e de não ladrar. É sempre uma alegria para ele quando voltamos a casa, mesmo que tenha passado apenas trinta minutos. O seu amor é genuíno e despreocupado. Não gosto do termo animal de companhia, nem de animal de estimação, mas gosto de dizer o meu cão, tal como digo o meu amigo, ou a minha prima, é como família, sem sermos do mesmo sangue ou da mesma raça, temos amor um pelo outro, nunca poderia ser de companhia ou de estimação, isso diz-se quando se paga a alguém ou quando falamos de um objecto. E às vezes fico a olhar para ele e de forma deliberada guardo essas memórias, e vejo que envelhece a uma velocidade diferente da minha, talvez por isso ele saiba que não merece a pena andarmos zangados, nem acumularmos rancores, as zangas devem de ser rapidamente resolvidas, pois o tempo urge e há que fazer dele aquilo que nos dá mais alegria.