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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Conversas da escola - O estupor da folha

29.06.20, Alice Alfazema

Uma senhora vem acompanhada, ou é acompanhante, de bebé de colo, criancinha de três anos e uma miúda de dez anos...vêm todos entregar os manuais da mana mais velha. O livro de português tem a folha de rosto escrita, como todos sabem, (alguns ainda continuam por saber), não é para escrever nos manuais, porque os manuais são para ser reutilizados, blá, blá, blá...Ora se a folha de rosto do livro de português está escrita o que fazemos? 

1- Apagamos o que está escrito.

2- Tentamos resolver o assunto de outra forma se não der para apagar.

3- Enquanto a funcionária anota os outros livros, rasgamos a folha num ápice, vulgo arrancamos, e esperamos que tenhamos sido suficientemente rápidos para que ela não tenha notado, caso note, dizemos que era apenas uma folha de rascunho. 

 

 

Estratificação social

às camadas

27.06.20, Alice Alfazema

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1.
ama os teus sonhos
como o teu próximo

ou como os sonhos
do teu próximo

mas se o teu próximo
não tiver sonhos

convém mandar o teu próximo
para muito longe

donde não te possa
contaminar

 

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2.
não atravesses a rua
(ou a vida tanto faz)
com palavras ameaçadas de medo

leva em vez delas
um límpido silêncio onde
possas nascer para o dia claro
que se anuncia
nas janelas do quarto

não regresses à rua
(ou à vida tanto faz)
com gestos grisalhos de medo

leva em vez deles
um derradeiro aceno se
for caso disso
entre as dobras do sono
de quem ao. longe está
a ser feliz doutra maneira

e se no teu olhar houver um rio
a apressar a partida
não hesites

mas por favor
não atravesses a rua
(ou a vida tanto faz)
com madrugadas contagiadas de medo

 

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Poema Alice Vieira, in O lado de Dentro, do Lado de Dentro.

 

 

São João

24.06.20, Alice Alfazema

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Ó meu rico São João,

que andas aí em cima desconfinado

vem cá abaixo acudir à malta 

que está tudo descompensado

 

...

 

Um São João sem gente

Numa rua tão abandonada

Diz-me assim de repente

Onde posso comer sardinha assada

 

...

 

Por não poderem ir ao Mercado

Sair de casa é muito arriscado!

 

...

 

Ó Menina ponha a máscara

Se quiser sair desse confinamento

deixa o teu olhar bailar

até encontrar o enamoramento

 

...

 

Encontrar o enamoramento!

Com tanto confinamento

Quem vai olhar para o meu andamento

Se, nem saio do apartamento.

 

...

 

E neste apartamento que posso eu fazer?

Assar sardinhas na varanda, grelhador a fumegar

Exibindo à vizinhança esse meu cheiroso lazer

Entranhado nos estendais para depois recordar

 

...

 

 

 

 

Podem contribuir com mais rimas...a primeira rima é minha, as outras podem ver o autor nos comentários...

 

 

As palavras que estão nos livros, o destino e as circunstâncias

23.06.20, Alice Alfazema

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- Olhe,  Daniel. O destino costuma estar ao virar da esquina. Como se fosse um gatuno, uma rameira, ou um vendedor de lotaria: as suas três encarnações mais batidas. Mas o que não faz é visitas ao domicílio. É preciso ir atrás dele.

 

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Cada livro, cada volume que vês, tem alma. A alma de quem o escreveu e a alma dos que o leram e viveram e sonharam com ele. Cada vez que um livro muda de mãos, cada vez que alguém desliza o olhar pelas suas páginas, o seu espírito cresce e torna-se forte.

 

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Palavras, Fermím em A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón.

 

As ilustrações são de Daniela Giarratana

 

 

O encaixe

22.06.20, Alice Alfazema

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O encaixe da vida destas flores fica entre um punhado de rochas, talvez aqui sejam mais felizes e tenham mais hipóteses de sobrevivência, às vezes o que parece impossível é a melhor estratégia, o encaixe é dinâmico e rico em pormenores ligeiros. 

 

 

É tão fundo o silêncio entre as estrelas.
Nem o som da palavra se propaga,
Nem o canto das aves milagrosas.
Mas lá, entre as estrelas, onde somos
Um astro recriado, é que se ouve
O íntimo rumor que abre as rosas.

 

José Saramago, in Provavelmente Alegria 

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